Aytian Nuvel


ATENÇÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!

NOVO ENDEREÇO

 

http://aityannuvels.blogspot.com/



Escrito por Zé Renato às 10h00
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Partindo para a casa nova

Queridos amigos,

 

O título desta postagem pode ser entendido tanto em sentido literal quanto em sentido figurado.

Finalmente começa a aventura de minha pesquisa de doutorado por um ano no Haiti, e aproveito a ocasião para avisar que o Aityan Nuvel vai mudar de endereço...

Por uma série de razões, sobretudo pelo fato de que passarei um ano no Haiti, imaginei que seria complicado manter uma conta de e-mail que mal uso e, portanto, resolvi encerrar o contrato de serviços com o UOL, transferindo o blog para um novo endereço o blog.

Então, vocês estão todos convidados para conhecer a nova casa.

 

Um abraço



Escrito por Zé Renato às 09h55
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Imagens e palavras

Imagens nunca falam mais que as palavras...

Uma imagem pode ate dizer muita coisa, mas nao e capaz de expressar tudo aquilo que se pode dizer de uma situacao...

Em minha primeira vinda ao Haiti um pequeno acidente privou meus amigos e leitores deste blog (por sinal, as mesmas pessoas) de tomarem contato com as imagens das coisas que tentava descrever de modo detalhado atraves de palavras.

Estou de volta ao Haiti, e agora tenho uma camera. Isso nao lhes exime da importunacao de minhas veleidades literarias...

Como contei-lhes antes, passei uma tarde/noite em Santo Domingo, capital da Republica Dominicana.

Uma cidade simpatica, feita sob medida para o turismo, a cara do Caribe de sonho que sempre ouvimos falar... Mar azul turquesa (ou verde esmeralda?), sol, edificacoes coloniais bem preservadas, bares e hoteis com uma estrutura pronta para captar os dolares e euros...

Sensacao de relativa seguranca nas ruas... Uma boa cerveja pilsen (Presidente), comida cara, taxistas oportunistas...

Dois belos aeroportos, o principal (que ora nao recordo o nome) e de Isabella, este pequeno que faz voos para as diversas ilhas do Caribe. Por menos de 300 dolares e possivel voar de la para outras partes do Caribe, inclusive para o Haiti...

Os aeroportos organizados nao impedem a acao de taxistas espertos e a falta de informacao para o turista incauto. Imaginem entao para quem esta de passagem?

Voamos num aviao pequeno para Port au Prince, e voltei a minha cidade querida, desta vez com mais liberdade e autonomia para circular pela cidade.

De cara, resolvemos almocar pelo centro, no pequeno e simpatico restaurante L'Arc en Ciel. Comida "creole" da melhor qualidade, pedi um "cabrit", acompanhado de riz "creole" com "haricot", salada de tomates, alface e cebola.

Boa comida haitiana. Comemos ainda uma deliciosa hortalica refogada, que ora nao recordo o nome, mas que lembra um pouco a chicoria, um pouco menos amarga.

De la iriamos a Livraria Pleiade encontrar Polo Dubois, mas estranhamente esta estava fechada em plena segunda feira.

Conduzia-nos o motorista Fenelon, contratado para nos atender.

Subimos para Petion Ville para circular um pouco pelas ruas, flanar irresponsavelmente pelas ruas de uma cidade apresentada para mim como um lugar violento.

Impossivel nao fazer referencia a este fato, mas a cidade parece menos violenta, tal como percebia antes, mas nao podia vivenciar.

Port au Prince e Petion Ville nao sao mais violentas que meu amado Rio de Janeiro, sua violencia e diferente e nao a conheco de fato.

O bom disso tudo e que agora estou livre e tranquilo para andar pela cidade.

Se Petion Ville parecia menos violenta do que me apresentaram antes e que pude constatar caminhando com Franz pelas ruas, agora mais do que nunca estou convicto disto.

Recordo que os soldados brasileiros haviam me dito isto, falaram que a area de Petion Ville era considerada "zona verde".

Se ja havia percebido isto antes, agora constatei definitivamente.

Isso nao significa dizer que isto aqui e o paraiso. So quer dizer que tambem nao estamos no inferno...

Como toda cidade grande, basta nao dar bobeira para o azar... Enfim...

 



Escrito por Zé Renato às 00h25
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Mache de Fer



Escrito por Zé Renato às 00h06
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Agradecimento

As fotos publicadas abaixo dao uma ideia aproximada do contraste entre os dois lados da Ilha de Hispaniola...

Agradeco ao meu bom amigo Joao Marcelo Maia, sociologo da melhor estirpe e meu irmaozinho rubro negro querido, pela cessao de sua maquina digital, que me permite mostrar imagens do Haiti...

De um lado a turistica e "bem organizada" capital da Republica Dominicana, em sua Zona Colonial, preparada para os turistas. De outro, uma vista privilegiada das ruas proximas ao Mercado de Ferro, no centro de Port au Prince...

 



Escrito por Zé Renato às 23h52
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Contrastes



Escrito por Zé Renato às 23h45
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Salut Mes Amies!

Salut Mezanmi!

De volta ao Haiti...

Ainda não tenho muita idéia de como será essa segunda vinda ao país, mas certamente desta vez muita coisa já está sendo diferente.

Desta vez não estou hospedado no distante bairro de Belvil, mas no famoso Hotel Olofsson citado no livro "Os Comediantes", de Graham Greene. Isso já muda bastante coisa, pois estou no centro de Port au Prince. A viagem para cá foi também diferente, ao invés de seguir o caminho que passava pelos EUA, pelo aeroporto de Miami, desta vez fiz uma viagem mais longa. Em virtude da necessidade do visto americano para qualquer tipo de conexão aérea (um absurdo diga-se de passagem) e pelo fato de vir acompanhando uma professora do Museu que não possuía este visto, fizemos uma viagem que passava antes pelo Panamá, de lá uma conexão para a República Dominicana. Uma noite em Santo Domingo, capital daquele país, e enfim pela manhã um vôo em pequeno aviao (perdoem a falta de acentos, pois nao estou conseguindo configurar o teclado do computador do hotel), em por fim, desembarque em Port au Prince.

Nao sao poucos os contrastes entre os dois lados da Ilha de Hispaniola. Hospedados em um hotel da Zona Colonial de Santo Domingo, sao notaveis as diferencas entre a turistica e "bem organizada" capital da Republica Dominicana e a "caotica" (e por isso apaixonante) Port au Prince...

Contar-lhes-ei estas coisas com mais detalhes doravante. Chamam-me para um compromisso...

 

Au revoir!



Escrito por Zé Renato às 18h07
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Nouvelles

Depois de um longo tempo parado, sem contar muitas novidades, volto ao blog...

Ainda não há muito para contar, pelo contrário, estou naqueles momentos de refluxo de uma pesquisa. Aquela fase de revisão das notas, de leituras e de preparação do projeto de pesquisa, agora considerando os levantamentos preliminares, possibilitados pela primeira viagem ao campo.

Penso com saudade sobre as minhas recordaçõs do Haiti...

Outro dia fui a um debate no Sindicato dos Engenheiros com um sindicalista haitiano. Infelizmente, pude avaliar muito pouco a partir do que o cara dizia. Também tomei contato com relatórios e materiais, que apesar se sérios e bem direcionados, me dão a nítida impressão de se tratar de diagnósticos parciais da situação no Haiti.

Em outro momento divulgarei estes materiais...

 

Em breve mais nouvelles...



Escrito por Zé Renato às 10h58
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Fim do primeiro capítulo...

Estou partindo hoje de volta ao Brasil.

 

Vim ao Haiti viver a experiência de conhecer outra cultura, levantar as questões fundamentais de meu trabalho, aprender uma outra língua, enfim, todas as fantasias e fetiches que giram em torno da idéia do trabalho de campo.

 

Devo agradecer inicialmente ao meu orientador de tese e grande amigo Federico Neiburg, que apostou na idéia de vir ao Haiti e investiu fortemente para que isso acontecesse. Nosso trabalho está apenas começando, mas apenas o simples fato de viver esta pequena experiência de campo, começo de uma longa jornada, já terá sido algo grandioso. Graças aos seus muitos contatos e meus novos amigos, como Omar Thomaz, Louis Marcelin e sua ampla rede de amigos no Haiti, entre eles o grande pesquisador Laënnec Hurbon, esta “aventura” não apenas foi possível, mas vai se tornar uma projeto maior.

 

Obrigado aos meus “sete ou oito leitores” pela companhia, porque em alguns momentos foi difícil falar, ficar aqui, estar aqui. Mas a sua interlocução virtual foi fundamental para que eu tivesse fôlego, superasse meus medos e continuasse em frente...

 

O blog não vai parar...

 

Continuarei no Brasil revendo as minhas notas, reescrevendo meu diário de campo, refazendo percursos. E naturalmente outros textos virão até a minha volta ao Haiti em 2007, desta vez para ficar um tempo ainda maior, de mais Nuvels.

 

Au revoir!



Escrito por Zé Renato às 11h33
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O ovo ou a galinha?

 

O problema da violência no Haiti e, sobretudo, a sua percepção pelas pessoas suscita uma pergunta permanente: é preciso segurança para haver desenvolvimento ou o desenvolvimento criará as condições de segurança?

 

Alguns dos meus interlocutores acreditam que nenhum projeto de desenvolvimento, que a alteração das condições de vida das populações pobres depende principalmente da superação dos graves problemas de violência que afetam o país. No seu entendimento, o quadro de violência que se instaurou afasta os investimentos e reduz as oportunidades de negócios no país. Que nada será possível se o país não contiver a onda de violência.

 

Por outro lado, sobretudo por ter conhecido um pouco a província, a vida afastada da capital do país, penso que o problema da violência afeta exclusivamente a capital do país. Logo, a sua percepção pelos habitantes da capital e a representação que esta violência produz nestas cidades afastadas são reificadas como uma espécie de “Quadro Geral do País”, o que nem de longe é a verdade absoluta sobre as demais regiões do país.

 

Em outras palavras, creio ser possível pensar sim em projetos de desenvolvimento no país, numa pauta que possa criar oportunidades de trabalho e investimentos em turismo, por exemplo, em Jacmel ou Cap Haitien. Penso que é possível criar projetos que atendam a pequena propriedade e a agricultura artesanal familiar para inserir essa produção em redes de distribuição de produtos das áreas tropicais: frutas, cana de açúcar, café, etc.

 



Escrito por Zé Renato às 11h32
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Imagino isso porque penso que a questão da violência urbana num quadro de tremenda desigualdade social não pode pautar a vida política de uma sociedade. E aqui vejo claramente que a questão da violência tem pautado a vida social e política, e por isso emperra qualquer imaginação política na busca de saídas para o país. Se as desigualdades não forem superadas, não há mínima chance de que a sociedade haitiana seja capaz enfrentar a violência. E por outro lado, penso que não há violência maior que a imensa pobreza que se vê nas ruas daqui.

 

Se os seqüestros afetam gravemente a vida do cidadão médio, se de um lado a idéia de que uma violência descontrolada impede o fluxo normal da vida social, por outro lado, não há violência maior que supermercados que parecem fortificações, onde as classes média e alta podem consumir produtos importados, do que os muitos carros importados que circulam de janelas fechadas, do que os seguranças fortemente armados que se ocupam de proteger a vida de “cidadãos de bem” do país.

 

Fala-se em “desarmar as gangues” para acabar com a violência e, no entanto, uma das coisas que mais vemos são aqui seguranças privados fortemente armados, protegendo mercados, casas e trechos de ruas. Há diferenças substantivas entre gangues de criminosos e “cidadãos de bem” que buscam se proteger? Isso nos leva imediatamente a uma comparação com a cidade do Rio de Janeiro, onde o prefeito César Maia chama as “milícias”, a velha “Polícia Mineira”, que controla algumas favelas da cidade, de um “exercício do direito dos cidadãos à sua defesa”. Aléxis, o primeiro ministro, não pode negociar com as gangues, mas nosso prefeito aprova a “limpeza” do Corredor do Pan.

 

Há ainda uma crença que insiste veementemente no fato de que Preval não tem compromisso com fim da violência, com uma ruptura com as gangues. Há quem realmente acredite que Preval tem uma relação forte com o que se chama por aqui de “Aristidismo”. O “Aristidismo” seria uma espécie de “populismo haitiano” que sucedeu à ditadura de Duvalier. Aristide teria investido em sua permanência no poder armando a população para resistir à sua débâcle. No fundo disto, ver-se-ia uma recuperação do Macoutismo, onde agentes privados controlam o Estado, mais do que isso, uma transferência do monopólio da violência legítima, que caracteriza o Estado Moderno, para grupos privados.



Escrito por Zé Renato às 11h31
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O problema então é que a violência aqui tem um caráter efetivamente privado, pertence a determinados grupos: às classes privilegiadas, que podem comprar segurança privada, armada; aos grupos armados dos biddonvilles, que operaram uma criminalização da política, que passa a assumir realmente as características típicas da violência urbana, baseada no trinômio pauperização da população – tráfico de drogas e armas – ausência do Estado.

 

A pergunta sobre Aristide para mim não tem resposta fácil. Suas ambigüidades, e tive realmente oportunidade de conhecer pessoas que lhe foram próximas, suas ambigüidades não nos permitem dizer nada de preciso sobre sua figura. Lideranças progressistas latino-americanas enxergam-no com bons olhos. A matéria do Diplo que coloquei em link na mensagem do dia 13/12 ( http://aityannuvel.zip.net/arch2006-12-10_2006-12-16.html ) , fala dessas ambigüidades, e narra um episódio relativo às privatizações no país, onde um ex-ministro conta que Aristide propôs a seus ministros transformar as privatizações num bom negócio para os membros do governo. Fala ainda de um Aristide que volta dos EUA comprometido com um programa de reformas neoliberais para o país. Ninguém pode afirmar, sem que isso seja feito com fervor quase religioso, de que lado está Aristide.

 

O fato grave é que ele tem uma grande parcela de responsabilidade no quadro atual de violência, senão diretamente como afirmam muitos, de modo indireto ao não combater os esquemas que caracterizaram o Estado haitiano na ditadura de Duvalier ou criando um esquema semelhante ao macoutismo, com seu grupo político o Fanmi Lavalas.

 

No entanto, creio que a grande violência que afeta ao Haiti são a sua extrema pobreza e as desigualdades sociais. O problema é a falta de políticas de combate a esta pobreza, e sem um combate direto a este problema, a violência não é, senão, o menor dos males.

 

A pergunta então é circular, se é a pobreza que gera a violência ou é a violência que não permite a superação da pobreza. O ovo ou a galinha?



Escrito por Zé Renato às 11h30
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Encontro na Librairie La Pleiade

Como já disse antes, com Franz me sentia andando com mais liberdade pela cidade. Falta pouco tempo para voltar para o Brasil, e a angústia que eu sentia de voltar para casa, começa a se transformar em saudade desta passagem pelo Haiti (aviso de antemão aos meus 3 ou 4 fiéis leitores que ainda contarei muita coisa depois de voltar ao Brasil).

 

Tenho que confessar que há três dias atrás estava angustiado e meio sem saco de continuar aqui. Pensava no tédio insuportável da ausência de novidades no horizonte. Vim ao encontro de certas questões e consegui encontrá-las, tenho boas condições de definir meu objeto de pesquisa, o que me restava a fazer aqui é o tedioso trabalho de levantar a bibliografia para o projeto de doutorado, visando sua qualificação. Neste exato momento, a exatas 48 horas de embarcar no vôo que vai me levar de Miami para o meu amado Rio de Janeiro, começo a sentir saudades daqui.

 

Apesar do pouco tempo, sempre somos afetados... Jean Marc, Zizi, Mowoso, Janice, Santher, Valsaint, Antoine, Robert, Silvie, Sabine, Roland, Mme. Deschamps, Franz… Os rostos vão passando como slides em minha cabeça e começo a pensar nas saudades que sentirei do Haiti. Os lugares. A paz e a beleza de Jacmel, a confusão e a excitação de Port au Prince, o charme discreto de uma movimentada Pétion Ville, a tranqüilidade de Belvil...  Os engarrafamentos na Route de Fréres, as compras no Caribbean, o rum Barbancourt e a cerveja Prestige. Os caminhos da Route du Canapé Vert, da Av. Panamericaine e da Route Delmas.

 

Omar me diz que o trabalho de campo é um casamento. Que nada acaba assim tão fácil... E olhem que está apenas começando...

 

Federico diz que a viagem é um sucesso... Não sei... Sei que estou vivendo uma experiência inesquecível, que está mudando a minha vida. Sei que estou tendo a chance de aprender muito, com o trabalho de campo, com os amigos que faço com a vida que estou vivendo.

 

Ontem saí mais uma vez com Franz. Desta vez com a máquina, que espero que esteja funcionando bem. Tirei fotos das ruas.

 

De manhã cedo, após o café, falei com Jean Marc que queria ir ao Museu de Arte no Champ de Mars. Ele não poderia me levar, perguntei já animado com esta perspectiva, se poderia ir com Franz. Jean Marc foi ao supermercado pela manhã, acompanhei-o e aproveitei para comprar uma garrafa de Barbancourt para levar para o Brasil (pena não poder levar a cerveja...). Voltamos e Franz já estava pronto para sairmos. Fomos eu, ele e um primo seu, que estava de passagem por Belvil e iria para Pétion Ville.

 

Pegamos o tap tap, para a “estação” no Cemitério de Pétion Ville. No caminho, uma parada. Falta gasolina. O motorista encosta o carro, desce com dois galões e caminha até o posto. Algumas reclamações em tom jocoso. Desço para fazer umas fotos. O pessoal que trabalha nas ruas não quer deixar que eu tire as fotos. Fica uma situação engraçada. Um sujeito faz às vezes de porta-voz, e exige que eu atravesse a rua para falar com ele. Eu rio, e digo que não... Foco a máquina. O sujeito acena novamente para eu atravessar a rua. Rio novamente e faço sinal para que ele atravesse para falar comigo. O pessoal do tap tap ri, enquanto espera o motorista voltar. Desisto das fotos. Uma mulher do outro lado finalmente manda me chamar para tirar uma foto. Mas o motorista chegou e temos que partir... Saímos todos rindo...

 

Comento com Franz que gostaria de ir à Bois Patate, onde fica a Livraria Plêiade. Ele tenta me demover da idéia, seguindo as recomendações de Jean Marc, por causa dos “kidnapping”. Digo a ele que é importante ir até lá, pois pretendo encontrar um amigo de um amigo brasileiro, que me pediu que encontrasse com ele. Ele diz: “Ora, então vamos...”. Seguimos em direção à Rue Rigaud para a “estação” dos tap tap que vão para o Centro, pela Route do Canapé Vert.

 

Cada vez que demonstro para Franz que reconheço bem os lugares por onde passamos, ele sorri aprovando. Descemos pela Route, até o prédio da Teleco. Ali seguimos pela Rue Bois Patate até a Plêiade.



Escrito por Zé Renato às 14h46
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Não poderia ter sido mais agradável o encontro com Pólo na Plêiade. Omar havia me dado a indicação, infelizmente não havia conseguido ainda ir à Livraria que fica no Bois Patate, somente na filial, em Pétion Ville. Se a filial da Gregóire me encantou pelo acervo de obras sobre o Haiti em História, Sociologia, Cultura e Religião do país, a matriz é uma daquelas grandes livrarias que se encontram em todas as cidades do mundo. E ainda tem uma papelaria e um café maravilhoso, onde se pode almoçar e beber a boa cerveja Prestige, café e sucos...

 

Apresentei-me como amigo de Omar, ao que ele abriu um imenso sorriso, que era brasileiro, antropólogo e estava no Haiti para a minha pesquisa de doutorado. Disse que não queria atrapalhá-lo e se ele tivesse algum tempinho, poderíamos conversar um pouco. Ele disse que não havia problema, que poderia me dar algum tempo para conversarmos. Aproveitei para comprar mais um livro da língua creóle, uma espécie de dicionário/guia de frases, expressões e provérbios em creóle.

 

Fomos ao simpático café da livraria e lá encontramos Wooly Saint Louis Jean, um cantor haitiano, cujo cd adquiri na minha primeira ida à Plêiade, por sugestão da vendedora. E que boa sugestão... Wooly faz uma música excelente, agardável, com toques caribenhos e um certo ar cool. Muito bom! Fã da voz e das canções de Caetano Veloso e das melodias e letras de Chico Buarque, começamos uma ótima conversa, entremeada por trechos de canções brasileiras. Ele falou de Chico como o cantor “francófono” brasileiro. Disse-lhe que deveria gravar um cd de canções brasileiras e lhe sugeri que gravasse “Joana Francesa”. Disse-me que gostava de uma versão francesa de “A flor da pele (o que será)”.

 

Pólo também falava de seu gosto pela música brasileira. Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano, Elis Regina... Falei de Tom Jobim, eles responderam “Le Maestro”! Pólo me pediu que quando voltasse ao Haiti que trouxesse a letra de “Pra Dizer Adeus”, de Edu Lobo e Torquato Neto. Respondi-lhe que poderia escrever para ele naquele momento. Ele ficou encantado.

 

Tomamos um suco de Limão, um café, conversamos muito. Disse-lhe que tinha planos de trazer meu baixo para o Haiti. Ele lamentou que eu fosse partir na quinta-feira, pois na sexta haveria uma soirée musical no café da livraria e ele gostaria muito que eu estivesse presente. Um pena mesmo, pois estava conhecendo uma faceta interessante da cena cultural de Port au Prince, mas do que isso da vida intelectual da cidade, que não passa necessariamente pela academia. Jean Marc, Santher, o decano professor Michel Pierre, a escritora Sabine e o poeta e professor universitário Antoine, todos estes representavam uma face da vida intelectual haitiana. Com Pólo e Wooly estava diante de uma outra entrada na vida intelectual haitiana.

 

De um lado, meu anfitrião e seus amigos são a nata da vida intelectual do país, figuras de ponta da vida política, com atuação destacada e certo trânsito internacional, eles são parte do fluxo de intelectuais de países francófonos, que circula pelo Caribe, Canadá, América Central, Estados Unidos e, principalmente, França. São pessoas com formação doutoral em outras partes do mundo, notadamente na França. Do outro lado, com Pólo parece abrir-se a porta de uma outra faceta da vida intelectual do país: os artistas e a intelectualidade não acadêmica. Senti uma ponta de tristeza, pois ali estava diante da boêmia cultural haitiana, e mais ainda, de uma Port au Prince que era bem menos assustadora que a cidade violenta, vista à distância de Belvil e de Pétion Ville.



Escrito por Zé Renato às 14h45
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Perguntei umas duas vezes sobre a violência, como que insistisse em ter uma impressão diferente da cidade. Da primeira vez, Pólo pareceu não dar importância ao tema, falou que rapidamente que há problemas, mas a vida continua e mudou de assunto. Depois se deteve mais um pouco, falou que realmente o quadro é grave, e que o grande perigo é que o habitante da cidade se acostume a esta situação de violência, que não é normal. Falou que esta forma de violência é uma espécie de “novidade” que os haitianos não conhecem bem, mas que é parte do quadro de violência de toda capital, em qualquer lugar do mundo. Falou que Port au Prince é o principal centro de atração da população da província que vem em busca de oportunidades melhores de trabalho, estudo, etc. E que esta violência é recorrente em países onde há grande desigualdade social.

 

Pólo parecia ter uma visão algo menos alarmista e bastante sensata do quadro de violência da capital. Não desprezava, nem minimizava o problema do recrudescimento da violência, mas notava claramente que este processo não é uma exclusividade haitiana, embora imprensa, uma parte da intelectualidade e políticos vejam o quadro com grande alarme. Apontava para as desigualdades como o fator predominante, ao contrário do que tenho ouvido constantemente, que a luta contra a violência precede qualquer possibilidade de escolha política e que qualquer projeto de superação das desigualdades esbarra invariavelmente no problema da violência.

 

Para Pólo o combate à violência depende essencialmente da superação das desigualdades sociais. Não é que se pense o contrário aqui, mas há no ar tal clima de insegurança, que as pessoas acabam esquecendo que toda violência daqui decorre também disto, da imensa desigualdade social e não apenas de um quadro político de desordem institucional, de permanente ausência do Estado nas questões que interessam à vida da população, de uma espécie de falta de espírito republicano, tanto na sociedade civil, como no Estado. A ausência de uma visão da vida urbana como a gestão da “res publica”, ou seja, a chamada “coisa pública” tem um peso substantivo sobre a vida social haitiana, mas não é o ponto essencial que pode promover as mudanças.

 

Penso como Pólo, que o ataque aos problemas de desigualdade, a geração de oportunidades, a regulamentação do uso do espaço público, sem que essas coisas sejam imposições externas, mas que seja um construto realizado por um amplo acordo social que envolva, principalmente, os setores mais afetados pelas desigualdades. Creio que algumas experiências têm sido feitas neste sentido, e o caso da pacificação de Bel Air pode apontar para uma espécie de modelo. Há muita coisa a ser feita...

 

Enfim, a conversa com Pólo suscitou um outro tipo de reflexão, que permite enxergar outras facetas do problema. Há de fato percepções distintas sobre a pobreza, a desigualdade e a violência no país que permitem um estudo bem interessante. O trabalho do Omar aponta para estes problemas da percepção da desigualdade pelas elites. Precisamos de trabalhos que apontem para outras percepções, essencialmente das populações pobres haitianas sobre a sua condição e sobre as possibilidades e caminhos para a superação destas condições a partir desta percepção.

 

Saímos da Plêiade com o compromisso de voltar lá trazendo vários cds de música brasileira e trazer meu contrabaixo para tocarmos juntos eu, Wooly e Pólo. São mais outros amigos que estou fazendo aqui no Haiti.

Escrito por Zé Renato às 14h43
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