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Conforme havíamos combinado, íamos sair bem cedo. Jean Marc me disse que costuma despertar as 5:00 h. Acordei às 7:00 h e me aprontei. Tomamos café e saímos em seu carro, um pequeno jipe Daihatsu de quatro portas. Jean Marc insistiu que as janelas devem ficar fechadas, o carro dispõe de ar condicionado (algo em comum com nosso Rio de Janeiro, não?), e as portas travadas. Circulando pela cidade, reparei depois que este tipo de automóvel é o mais comum, misturados aos “tap tap” e carros (todos importados) muito velhos. Os “tap tap”são caminhonetes, vans e utilitários diversos adapatados para o transporte de passageiros. Vi pouquíssimos, raros mesmo, ônibus.
O trânsito aqui é uma loucura, poucos sinais e não há placas. As ruas são extremamente deterioradas, muitos buracos, em algumas partes mesmo o piso é totalmente destruído.
Mas é também nas ruas que se vêem as coisas mais fascinantes.
Cores, muitas cores, gente bonita. Se há um lugar no mundo onde se pode dizer com orgulho “Negro é lindo!”, esse lugar é o Haiti. As ruas são tomadas por gente vendendo coisas. As poucas e deterioradas calçadas são totalmente ocupadas pelo comércio de rua. Comércio onde vende de tudo: artigos de limpeza, comida, frutas, legumes, aves vivas, abatidas e aos pedaços, artigos eletrônicos, roupas, sapatos... Uma loucura!
Seguimos por uma via importante, a “Route des Fréres, e paramos em um banco local, Sogebank. Jean Marc precisava resolver alguns problemas. Disse que depois iríamos à Université d’Etat, a Faculté de Sciences Humaines (FASCH), onde encontraríamos um grande amigo seu, Pierre Santher. Caí na asneira de sair com uma mochila, laptop, um monte de coisas... Comentei que precisava comprar um telefone celular, conforme me recomendara Rubem. O laptop tinha uma única justificativa: buscar uma conexão wireless mais consistente do que aquela que disponho na casa de Jean Marc. As coisas restantes foi burrice mesmo. Livros, cadernos, enfim... Coisas que realmente eu não ia precisar.
Jean Marc insistia que eu não deveria me aventurar pelas ruas. E como neste primeiro dia a língua francesa havia se ocultado em algum ponto obscuro e inalcançável de minha memória, achei que suas recomendações faziam sentido. Mas olhando pela janela do carro aquelas ruas e sua tentação, tudo o que eu queria era andar por elas e ver de muito mais perto toda essa gente, as coisas. Não há termo de comparação entre as coisas que se vê por aqui e o Brasil. A essa altura me comunicava com Jean Marc com une mélange de english, español, francês, tudo isso pensando antes em português...
Continuamos seguindo pela Route dês Fréres, através da qual nos dirigimos para Pétion Ville, que fica no alto da cidade, e para além, que é o centro de PAP, lembra muito a Belford Roxo de minha infância, quando a minha avó Luzia morava por lá, nos anos 70, ou com a Duque de Caxias da mesma época, onde morava minha tia Teresa, no Pantanal de Caxias, depois de Gramacho. Tem algo também de alguns lugares da zona oeste do Rio. Meio que uma mistura de ambiente rural em um espaço urbano. Para Jean Marc trata-se claramente de um caso de hibiridização entre rural/urbano que caracteriza a cidade de PAP, que caracteriza de um modo geral segundo ele, as cidades haitianas.
O trânsito é confuso. Muito confuso. Como havia dito antes, há uma profusão de veículos nas ruas. Os taptap, os carros variados que são utilizados como transporte de passageiros, os veículos particulares, as viaturas brancas com o símbolo das Nações Unidas, caminhões, uma plêiade de veículos motorizados que se misturam com as pessoas que andam pelas ruas, uma vez que as poucas calçadas, quando estas existem, são totalmente tomadas pelo comércio de rua. Parece que a qualquer momento vai haver um choque entre veículos ou um atropelamento.
Escrito por Zé Renato às 18h00
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Tap Tap

Escrito por Zé Renato às 17h17
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Segunda-feira, dia 27 de novembro de 2006. Este foi o dia em que cheguei de fato ao Haiti. Embora ainda de carro, como ocorrera no primeiro dia e ainda vem ocorrendo nos dias subseqüentes (meus anfitriões acham uma temeridade um estrangeiro andar sozinho pelas ruas de PAP), neste dia comecei a circular por dentro da cidade e a ir aos lugares.
Não foram poucas as advertências de Jean Marc e Henri sobre a violência das ruas. Mas como bom carioca, penso sempre que há certa dose de exagero nisto. Para quem se acostumou com a música diária dos fuzis AR-15, a ausência deste som tão característico que embala minhas noites de sono, me leva a crer que PAP não é nem mais violenta e nem menos violenta que o Rio. Sua violência tem um caráter muito distinto.
As ruas estão agitadas, aliás, as ruas aqui SÃO agitadas. Mas há um tipo de agitação especial. Domingo, dia 3/12, vai haver eleição. Estas eleições são municipais e regionais, servem para eleger os administradores das diversas áreas da cidade e do país. A constituição do país, feita após a queda de Duvalier, previa uma grande descentralização dos poderes, dando grande força aos departamentos (unidades administrativas). Esta autonomia administrativa, no entanto, depende de um alto grau de autonomia econômica de cada departamento. Segundo me contou Jean Marc, o artigo constitucional que garantia esta autonomia econômica foi revogado, e desta forma é o governo federal quem distribui os recursos. Logo, para Jean Marc estas eleições não passam de um grande teatro, pois o controle de cada departamento está ligado à relação que seu administrador com o governo do país.
São muitas as críticas de Jean Marc ao presidente René Preval e à atuação da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti). Para ele Preval é fraco e incapaz. Não tem um plano para dirigir o país e para encontrar alternativas. Quanto à MINUSTAH esta lhe parece incapaz de cumprir o mandato destinado a elas, e em sua opinião esta força é incapaz porque não tem interesse em fazê-lo (fico me perguntando, se o problema é COMO fazê-lo, sem jogar o país em mais violência e crises).
“A Resolução 1542 do Conselho de Segurança (CS) da ONU estabeleceu a MINUSTAH no dia 1o de junho de 2004 e deu à missão um mandato forte em três áreas principais: provimento de segurança e de um ambiente estável, particularmente através do desarmamento; apoio ao processo político e boa governança em preparação para futuras eleições; e monitoramento e apresentação de relatórios sobre os direitos humanos.”
(“Mantendo a Paz no Haiti?” documento redigido pelo Centro de Justiça Global do Rio de Janeiro e São Paulo, Brasil e Harvard Law Students Advocates for Human Rights, Cambridge Massachussets, Março 2005)
Como exercer este “mandato forte” é uma pergunta significativa...
Por outro lado, as afirmações otimistas de Rubem sobre a pacificação de Bel Air e todos os documentos produzidos sobre este sucesso atribuído ao batalhão brasileiro (os outros países que formam a MINUSTAH são Cingapura e Jordânia) e o que dizem por aqui é que os soldados brasileiros (em especial os cariocas) acham graça quando se fala que PAP é uma cidade violenta, enfim, há um bocado de contradições que só podem ser evidenciadas com um contato direto com a realidade do país e, especialmente de PAP.
Escrito por Zé Renato às 17h06
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Voltamos à casa de Jean Marc. Finalmente pude conhecê-lo. Uma pessoa simpática, gentil e muito culto. Um intelectual haitiano de ponta. Sua participação na vida intelectual e política do país é gigantesca. No entanto, parece estar desencantado com a política. Acha Préval um idiota, um incapaz, sem um plano para o país. Sua posição é de que faltam planos para o país, não vê saídas se o país não superar a tremenda violência que se abate sobre Porto Príncipe, e que atravessa como um fantasma todas as regiões do país.
Quando houve a queda da ditadura de Baby Doc e posteriormente a vitória de Aristide, Jean Marc ajudou na elaboração de diversos documentos importantes e é professor e fundador da Universidade Quisqueya, da qual falarei mais adiante. Jean Marc é também professor em Paris.
Conversamos pouco e combinamos que sairíamos bem cedo no dia seguinte.
Escrito por Zé Renato às 16h46
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No caminho, diversos biddonvilles à beira da estrada e das ruas que conduzem ao local onde estou hospedado. Dias depois na embaixada francesa veria que alguns destes lugares, sobretudo o em torno do aeroporto, são consideradas áreas de altíssima periculosidade... Nada demais para quem sabe que as vias que conduzem ao aeroporto internacional do Rio atravessam diversas favelas, entre elas o Complexo da Maré...
Ao chegarmos, a esposa de Jean Marc, Mme. Janice de Rayon, se assustou com nossa chegada, achando que éramos assaltantes (ela não conhecia Roland) e como Jean Marc só me esperava no dia seguinte, ela nem imaginava quem pudesse ser eu. Conversas em francês, em creóle, telefonemas e pronto, Mme. de Rayon recebeu-me gentilmente. Indicou-me o quarto que me hospedaria, deu-me uma toalha. Informou que Jean Marc estava fora e que haviam chegado a pouco, por isso não havia nada para comer. Roland disse que me levaria para almoçar e retornaríamos mais tarde.
Saímos e fomos à Pétion Ville onde almoçaríamos em um restaurante chamado La Taverne. Estava vazio, apenas um homem almoçava sozinho em uma mesa num canto. Roland perguntou-me se beberia uma cerveja. Primeiro recusei, mas achei indelicado, e resolvi aceitar. O garçom trouxe o cardápio. Como não sabia o que escolher, pedi que Roland sugerisse algo. Pediu um “Poison oiselle”. Enquanto esperávamos conversamos um pouco sobre a política local, estávamos a uma semana da realização de eleições regionais e municipais. Ele perguntou sobre Lula. A imagem de nosso presidente no exterior é excelente... Comentei as críticas que os setores de esquerda fazem a Lula, e que boa parte dos governos nacionais é obrigado atuar na macroeconomia como neoliberal e nas micropolíticas tentar ao menos fugir do receituário. Ele concordou de modo realista. Contou-me que trabalha numa agência que organiza projetos de microfinanças e microcrédito. Falei que esta talvez fosse uma saída para o país.
O prato chegou e era um belo peixe cozido, servido com uma salada de alface e tomates, com rodelas de banana verde “pisada” e frita. Em separado vinha uma guarnição de arroz, que depois pude notar que era misturada com feijões e champignon. Pode parecer um tanto exótico, mas é definitivamente saboroso. Aliás, uma das melhores impressões que começo a ter do Haiti depois da beleza das pessoas, é a sua cozinha.
O povo daqui é simpático... Ainda não conversei com muitas pessoas, mas fiquei bem impressionado. O problema maior é conseguir me fazer entender em um parco francês e entender alguma coisa quando se conversa em creóle. Em francês ainda consigo ouvir e entender alguma coisa, mas quando eles começam a falar em creóle, e pior, quando ocorre um mistura de creóle e francês é de deixar qualquer um louco...
Escrito por Zé Renato às 19h03
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Meus temores se dissiparam quando vi um pequeno cartaz com meu nome. Era Roland.
Roland é um cara baixinho, de bigode, cara de gente boa. Tentamos dialogar um pouco. A esta altura meu pouco francês desaparecera com o nervosismo da chegada. Faltavam-me as palavras, os verbos, faltava tudo. Em algum lugar de minha cabeça se escondera a língua francesa que eu falava, ainda que falasse pouco, falava...
Enquanto esperava Roland buscar o seu carro (depois pensei que poderia ter ido com ele), fiquei com um carrinho de bagagem, enquanto me abordavam vários taxistas e sujeitos “dispostos a te ajudar”. Um deles que estava próximo a Roland quando o encontrei, colou em mim, ajudando a empurrar o carrinho das malas. Como Roland nada fez para afastá-lo, imaginei que se tratava de um conhecido. Usava um boné e roupas bem modestas. Era já um senhor com seus talvez cinqüenta e tantos anos.
Como Roland demorava, o sujeito falou de futebol, que adorava o Brasil, que PAP parava quando o Brasil jogava. Falou em Ronaldo, Ronaldinho e Zico... Quando falou em Zico, meu coração rubro-negro pensou que podia confiar nele... Conversamos mais um pouco, e ele me disse que era “supervisor”. Comecei a achar que estava em ótima companhia, até o sujeito me dizer que eu devia ajudá-lo, afinal ele era o “supervisor”. Voltei a fazer cara de desentendido, mas já percebera que ele queria dinheiro. Puxei então mais um dólar do bolso... Ele me disse novamente que era “supervisor”, que devia dar-lhe cinco dólares... Eu disse que não tinha, puxei mais duas notas de um dólar, e o sujeito agradeceu e sumiu, me largando lá à espera de Roland. A esta altura já nem lembrava mais de como era o rosto de Roland...
Com a saída do “supervisor” aproximou-se outro sujeito, este bem alto, boa pinta, bem vestido. Ofereceu-me um táxi, em inglês, falou algo em creóle, cuja resposta automática era: “Pardon, je ne compris...”. “Je suis bresilién”... O sujeito agora ficava perto de mim, enquanto eu tentava ver qual era o carro de Roland.
Assim que o carro chegou, ele se ofereceu para ajudar a por a mala no carro. Pensei eu: mais um dólar... Quando entrei no carro, o cara pediu uma gorjeta. Roland com um gesto desencorajou-me, e por sinal, já não tinha mais notas de um dólar. O sujeito me cumprimentou gentilmente e se retirou. Partimos
Nos pusemos a caminho de Belvil, local onde mora Jean Marc Rayon.
Escrito por Zé Renato às 19h02
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Chegada em Port au Prince (PAP)
Minha chegada ao aeroporto de PAP me deixou espantado... Parecia que estava num filme etnográfico sobre a África, daqueles feitos pelo Jean Rouch...
Já no aeroporto de Miami, qual não fora o meu espanto ao confirmar aquilo que Rubem César havia me dito, que as pessoas parecem saídas de um filme dos anos cinqüenta. Os homens e as mulheres com seus chapéus, aquelas senhoras com “cara de tia do samba”. Mas mal dá para imaginar a loucura que é chegar ao aeroporto Toussaint L’Overture...
No vôo, uma coisa que é a cara do país: poucas pessoas devem ser alfabetizadas por aqui. Sobretudo entre os mais idosos. Então, as comissárias da American Airlines, pacientemente, preenchem os formulários da imigração.
Ao desembarcar comecei a me dar conta do mundo diferente que se abria diante de mim. Saí do avião e senti o bafo quente do mormaço. A temperatura em torno dos 30º C . A primeira impressão do aeroporto é uma tremenda azáfama, uma desordem incrível... Tal impressão se confirma, ao passar da imigração e entrar na área de recuperação de bagagem.
Um rapaz magro de bigode, com um crachá, que julguei ser do aeroporto, me abordou de maneira algo entre o gentil, algo entre o ostensivo, quase tomando o ticket de bagagem de minha mão. Como o tal rapaz não conseguia encontrar a mala e ora desaparecia pelo aeroporto, comecei a ficar preocupado com aquilo. Começava a achar que o rapaz desapareceria com a minha mala e o pior, não encontrara ainda com Roland LeClerc, irmão de Henri, que viria me receber no aerorporto. Comecei a pensar que havia me metido numa tremenda roubada... O rapaz voltou, ainda sem a mala. Tomei dele o ticket. Isso ao menos me deixava mais seguro. Informei a ele que a mala ela como uma que ele me mostrou, mas azul. Falei em francês: “C’est comme ça... Mais bleu”. Ele me respondeu: “Noir????”... “Non! Bleu... Bleu...”. Minha chegada ao aeroporto de PAP me deixou espantado... Parecia que estava num filme etnográfico sobre a África, daqueles feitos pelo Jean Rouch...
Pouco depois o rapaz o rapaz apareceu com a minha mala, e somente aí compreendia que não se tratava de um funcionário solícito do Aeroporto Toussaint L’Overture, mas um dos muitos trabalhadores das ruas de PAP, que veria em minha saída à rua... O rapaz virou-se para mim e disse: “Tip...”... E eu: “Pardon?”, ele insistiu: “Tip...”. Já havia entendido, e saquei um dólar do bolso e dei ao rapaz...
À saída do Aeroporto não foi menos espantosa. Detive-me um pouco ainda, diante de um quiosque dentro do aeroporto, na expectativa de comprar um telefone celular. Dezenas de taxistas já começam a te abordar neste momento. Policiais armados impedem outros de chegar ao saguão do aeroporto. Em meio a tal confusão, já temia pela possibilidade de encontrar Roland... Aliás, naquele momento de minha chegada ao país mal sabia o nome do irmão de Henri...
Está me batendo o sono.
Amanhã escrevo mais...
Escrito por Zé Renato às 03h17
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Em Port au Prince
Resolvi registrar em um blog os vinte e poucos dias de minha primeira experiência no Haiti.
O título do blog tenta imitar a forma que o povo daqui fala a sua língua, dotada de uma grafia e sonoridade próprias, derivada do francês, o CREÓLE (kryol). Pode ser lido também como um jogo de palavras em francês/português. Pode ser visto como um relato confessional, notas de viagem, uma "novela" em alguns capítulos (nuvel, nouvelle, novidades, novela...).
Não recomendo aos francófonos imaginar que soltos no meio de uma das ruas do mercado de rua de Mont Hercule vão conseguir se comunicar tranquilamente com o povo daqui. São línguas absolutamente distintas o creóle e o francês...
Amanhã tento passar algumas notas de minha chegada ao Haiti.
Escrito por Zé Renato às 01h08
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