 |
|
|
Acordamos cedo para a viajar à Jacmel. Pusemo-nos a caminho depois de pegar Santer em sua casa, e seguimos para o centro da cidade, o Champ de Mars, contornamos em direção ao estádio Silvio Cator, o mesmo caminho que havíamos feito para a Université Quisqueya. De lá seguimos pela Bicentenaire em direção à Route de Carrefour. Antes passamos em frente à Cite Eternél, que lembra as favelas mais pobres e desoladas do Brasil, próxima do mar, com um imenso canal por onde passa todo tipo de esgoto e lixo.
Um dos graves problemas do país é o trinômio falta d’água – falta de energia – lixo. A combinação destas três variáveis torna alguns lugares de PAP insuportáveis. Cite de Dieu, Cite Eternél e (pelo menos imagino) Cite Soleil padecem destes três males combinados. Sem água e coleta de lixo, as condições de higiene e consequentemente a insalubridade campeia, a falta de energia nesse quadro é apenas o menor dos males, mas que sem dúvida agrava profundamente a qualidade de vida nestes lugares. O país é realmente pobre e algo precisa ser feito aqui para criar um alento, uma esperança de que o mundo em que vivemos pode ter soluções. Algo que seja capaz de minimizar o inferno das condições de vida em áreas de pobreza absoluta.
Reparo que há um grande número de agências e bancos que trabalham com transferências de dinheiro do exterior para o país e comento com Jean Marc. Este me responde que esta é uma das principais fontes que sustentam a economia do país. A diáspora haitiana cria estes mecanismos de apoio entre as famílias e seus membros que vivem fora do país. Muitas famílias haitianas têm membros que vivem no exterior. Com uma população estimada em torno de 8 milhões de habitantes, Jean Marc acredita que vivem fora do país pelo menos 2 milhões de haitianos, e estas pessoas sustentam suas famílias com os recursos enviados para o país, injetando um alto volume de dinheiro em dólares na economia do Haiti.
Pela Route de Carrefour a pobreza não é menor. Seguíamos pela Route de Carrefour até Mariani e de lá seguindo até Leogane. De Leogane vamos até Carrefour du Fort, onde há uma bifurcação que de um lado leva ao Sul da ilha, cuja capital é Les Cayes, e ao distrito de Grande Anse, cuja capital é Jéremie. Do outro lado, o nosso caminho, o sudeste da ilha, cuja capital é Jacmel.
Subimos uma serra bastante bonita, com uma estrada em bom estado de conservação, algumas vilas pelo caminho, bem pobres, com uma das características típicas do país, os mercados de rua. No caso destas vilas, o mercado é à beira da estrada, onde é possível atingir a clientela que circula do centro do país em direção ao balneário de Jacmel e o trânsito de pessoas que vão de uma cidade a outra em tap taps.
Chegamos à Jacmel e fomos direto para escola de música, onde Jean Marc tem aulas de sax alto. Aliás, em Porto Príncipe, todos os dias, religiosamente às sete e trinta da noite, Jean Marc pratica sua música por meia hora. Na escola peguei um violão e acompanhei Jean Marc tocando “Manhã de Carnaval”, de Luis Bonfá e Antônio Maria. Ele ficou encantado com o fato de eu saber tocar violão...
Jean Marc me disse que eu poderia passear à vontade pela cidade que, diferente de PAP, era absolutamente segura. Sai andando a esmo, pela rua principal da cidade. Comprei um refrigerante para beber e voltei. Esperávamos Zizi, irmão de Ricard Jean Pierre, que nos levaria à casa que iríamos ocupar. Zizi será em Jacmel o meu principal contato.
Escrito por Zé Renato às 14h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Circulava assustado no meio dos grandes grupos, que com o cair da noite começavam a se retirar da praça. A animação dos grupos, no entanto, é contagiante. Gritos em creóle, uma falação animada, e eu ali no meio de tudo aquilo, sem entender uma palavra sequer...
As vezes me assustava quando alguém vinha em minha direção. Definitivamente o sentimento de ameaça constante que meus anfitriões tanto falavam me acompanhava de bem perto neste passeio, sobretudo pelo fato de parecer "um gringo no kompas", em que pese a minha cor de pele e o fato de muitas pessoas, enquanto eu não abro a boca, até poderem pensar que eu sou haitiano. A cerveja havia me deixado um pouquinho mais relaxado da tensão inicial, mas ainda mantinha os sentidos em alerta, para qualquer evento estranho. A sacola de livros da Pleiade se tornara um tremendo estorvo: era a denüncia perfeita de que eu não era um deles, era a camisa florida, a bermuda com sapatos e meia, a enorme câmera pendurada no pescoço, era o sinal de que eu era um turista!
Não fosse esse temor que sentia, talvez o passeio pudesse até se estendido mais e sido bem mais tranqüilo e divertido... O fato é que eu não achei nada demais nas ruas, mas pode ser realmente que ser um estrangeiro seja um tremendo chamariz para os seqüestros que têm assustado demais as pessoas daqui.
O bom foi ver de bem perto as pessoas e sentir o clima que envolve as eleições. As pessoas aqui são alegres, simpáticas, gentis... Têm um modo afetuoso, porém desconfiado de se relacionar. Falam e gesticulam muito, são expressivos na maneira de falar e muito brincalhões. Muitas vezes, o que pode parecer uma discussão é apenas uma grande gozação entre dois amigos...
As ruas de PAP são um mundo para se perder... Lembro então que no dia seguinte, pouco depois de ganhar pela primeira vez as ruas da cidade, vou para Jacmel...
Escrito por Zé Renato às 00h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Quinta feira...
Um dia para não esquecer mais...
Foi a primeira vez que me vi sozinho às ruas de Pétion Ville.
Saímos pela manhã, Jean Marc tinha coisas a resolver, iríamos ao consulado francês pegar sua correspondência e nesta ocasião veria pela primeira vez o mapa que mostra as áreas “perigosas” da cidade de PAP. Estávamos próximos ao Champ de Mars, relativamente perto da Plêiade que pretendia conhecer. Jean Marc precisava ir a um banco e queria me levar para conhecer a École Nourmaliste, de sua irmã, que fica no bairro de Canapé Vert. Na volta, Jean Marc acabou esquecendo o meu pedido e se comprometeu a me levar no fim da tarde à livraria, pois tinha que se encontrar com um amigo, professor da Universidade.
Antes de retornarmos a casa, passamos por um supermercado. O mercado que fica numa esquina, mais parece uma fortificação. Cercado por muros e guaritas, o mercado parece se proteger de assaltos e saques, informação que Jean Marc me confirmou. Todas as grandes lojas e bancos têm em suas portas avisos de que é proibido portar armas em seu interior. Dentro do mercado encontrei dois soldados brasileiros da Minustah. Eram nordestinos e disseram estar com grande dificuldade de se comunicar, embora usassem expressões básicas em francês. Simpáticos, conversamos rapidamente, e diziam estar voltando em breve ao Brasil.
No final da tarde fomos direto para Pétion Ville, para a filial da Plêiade, na Rue Grégoire, próxima a Place St. Pierre. De cara, a praça é um lugar extraordinário: é o local onde se encontram todos os candidatos a magistrados e administradores locais. Pequenos comícios, grupos grandes chegando com bandeiras, cantando, os carros de som tocando “kompas”, o ritmo nacional. A agitação é envolvente, o grupos vêm e vão em torno da praça, descendo pela Grégoire, vindo pelas ruas Ogé e Lanmare, contornando a praça. Em frente à sede do Hotel National, um grupo se organiza, há uma banda de música, mulheres carregando flores. Na praça, outros dois grandes grupos estão em torno de seus candidatos que discursam.
Comprei tudo muito rápido, e Jean Marc disse que eu podia passear pela praça. Foi então que, meio assustado, como criança que sai sozinha à rua pela primeira vez, que andei pelas ruas de Pétion Ville...
Não podia ser mais excitante a minha primeira saída. O coração estava aos saltos... Não queria parecer demais com um turista, embora isso parecesse evidente. Andei um pouco, circulei pela praça, vi as pessoas dançando “kompas” e gritando por seus candidatos.
Estava agitado e resolvi procurar um lugar onde pudesse beber algo ou um cyber café...
Desci pela Grégoire até a Chavennes, onde havia na esquina um pequeno restaurante. Havia gastado boa parte dos gourdes com os quais saíra na Pleiade. Teria que usar dólares...
Pedi uma Prestige (excelente cerveja local), sentei numa mesa, ao lado de um casal com uma criança. A moça que me atendeu foi bastante gentil, me explicando pacientemente a relação entre os preços em gourdes e dólares haitianos. Demorei a entender uma coisa bem simples: os preços estão sempre expressos em dólares haitianos, mas a transação é feita com gourdes. As pessoas convertem automaticamente ou com auxílio de calculadoras. Falei que era brasileiro, ela perguntou se eu era da Minustah ou médico, disse que nem um, nem o outro. Estava conhecendo o país, pois vinha fazer a pesquisa do meu doutorado aqui, no ano que vem, quando pretendia ficar um longo tempo.
Escrito por Zé Renato às 23h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Anoiteceu e íamos voltar para a casa de Jean Marc. A casa de Robert e Monique ficava no bairro de Peguyvillle, em Pétion Ville. Acompanhamos o carro de Sabine até sua casa, que ficava próxima a de Robert, em Bois Moquette. De lá seguimos para retornar à Route de Frères, que nos levaria para casa. Estava excitado. Era a primeira vez que circulava pela cidade à noite, desde que cheguei. A primeira constatação é que é uma cidade às escuras. Não há luz nas ruas e nem nas casas. A luz elétrica, quando há, é nos postos de gasolina, mini-mercados, bancos, estabelecimentos comerciais de médio e grande porte.
O mercado de rua, mesmo com o anoitecer, não pára. Iluminadas por pequenas lamparinas de querosene, as barracas e produtos vendidos no chão continuam sendo negociados pelas mulheres pobres com seus filhos pequenos ao lado. Aliás, o mercado é das mulheres. Vemos pouquíssimos homens vendendo coisas nas ruas. A maioria é de mulheres, que também vendem comida nas ruas: “banane pisée”, “poule fris”, “béf”, “cabrit”... Peixe, muito raramente. Curiosamente, conversando com Santher em Jacmel, este me disse que o pescado é muito caro no Haiti, o que é um contra-senso, considerando que o país é uma ilha. Para Santher são “coisas e mistérios do subdesenvolvimento haitiano”...
Combinamos que no dia seguinte Jean Marc me levaria para conhecer a Livraria Plêiade.
Escrito por Zé Renato às 23h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Na manhã seguinte Jean Marc me levou para conhecer a Université Quisqueya. A impressão que o campus provoca é a melhor possível. No caminho passamos por uma Potoprens (como se diz em creóle, com o “r” bem arrastado e com o primeiro “o” bem fechado) bem degradada. As ruas do centro da cidade estão bastante destruídas e abandonadas. Em torno do Champ de Mars e do Palais National há algo ainda conservado, mas seguindo pela Av. Mgr. Guilloux até o Stade Silvio Cator, a visão é desoladora. Ali estão várias faculdades da Univesité de l’Etat du Haiti, tais como as faculdades de Medicina, de Artes e o Hospital Universitário. Seguimos pela Rue Chareron, no bairro de Morn A Tuf, perto do Stade, onde há uma imensa confusão de veículos. Cruzamos o Bvd. J. J. Dessalines, a Rue du Magasin de l’Etat e no cruzamento entre Chareron e a Bicentenaire, praticamente defronte à Cite l’Etérnel, está a Université Quisqueya.
Quisqueya me pareceu uma ilha de prosperidade em meia à absoluta miséria de seus arredores. Enquanto o centro de Potoprens é increditavelmente destruído e abandonado, a Universidade tem uma ambiente muito agradável. Ao contrário do restante da cidade, que padece com a falta de luz, pude ver lá uma dúzia de salas com ar condicionado, luz, retroprojetores, vários computadores, dat-show, quadros brancos, excelentes recursos didático e ainda, um belo campo de futebol... Enfim, uma estrutura excelente.
No fim da tarde fomos visitar amigos de Jean Marc. Passamos na casa de Antoine Bernard, um grande poeta daqui, professor da Université de L’Etat. Íamos a casa de Robert e Monique, dois importantes militantes na luta pelos direitos humanos no país. Depois que chegamos, juntou-se a nós a bela Sabine Vernet, escritora e militante. O tema da conversa girou em torno do caos urbano de Port au Prince, a lógica que preside a vida social da cidade, a transformação do Estado em um elemento de estímulo à criminalidade, o seqüestros. A cidade está em pânico com os “kidnapping” que proliferam na cidade, sobretudo em função do seqüestro, tortura e morte de uma jovem mulata, de classe média baixa, que por ser mulata, teria produzido em seus algozes a idéia de que era rica. Há uma espécie de “senso comum” no país de que os mulatos têm uma posição social melhor. Por esta razão, o seqüestro da jovem produziu grande comoção, por se tratar de alguém que não possuía tanto mais que seus seqüestradores. O horror se completa com a inexplicável tortura e morte da jovem. Disse a eles que no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, a situação de violência urbana é também gravíssima. Meus interlocutores, porém, insistiram que aqui o quadro é agravado pela ausência do Estado ou por sua participação direta na promoção da violência. Por fim, a constatação de Sabine, como eu já havia dito aqui mesmo, é que o Lavalas e a Tonton Macoute são apenas a mesma face de uma mesma lógica violenta que caracteriza o uso da política para controlar o Estado e se manter no Poder.
Escrito por Zé Renato às 23h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Demorei a entender a cidade, e só comecei a compreender bem como são as coisas por aqui depois de visualizar no mapa. Delmas e Pétion Ville são distritos autônomos de Port au Prince, formando uma espécie de zona metropolitana desta cidade. Pétion Ville está no alto, Delmas fica um pouco abaixo e mais próxima de PAP, e esta fica na parte baixa, onde estão o Palais National, o Champ de Mars, o Stade Silvio Cator, onde houve o jogo entre Brasil e Haiti. Seguindo a rua que é ao lado do Stade, vamos parar na Cite Eternél. Indo Boulevard Bicentenaire (H. Truman), que segue por um longo trecho paralelamente ao Boulevard Jean Jacques Dessalines (Grand Rue), até onde se encontram para se tornar a Route Nationale No. 1 , por este chega-se à Cite Soleil. Do outro lado do Champ de Mars, abaixo do Fort National está Bel Air, bairro que foi ocupado e pacificado pelas tropas brasileiras. O aeroporto fica em Mais Gate, e com o mapa, percebi que o caminho que Roland havia feito comigo não passava pela cidade de Port au Prince propriamente dita. Fomos pelo Boulevard Toussaint Louverture até o Boulevard du 15 Octobre e pegamos a Route dês Frères, que nos levou à Belvil.
Embora possa se dizer que Port au Prince, Pétion Ville e Delmas formem uma coisa só: a grande área de Port au Prince, são a rigor três áreas bem diferentes e afetadas de diferentes maneiras pelo processo eleitoral em curso. Pétion Ville parece bastante agitada, muito mais que o centro de PAP, e ao menos pelo que vi nos bairros de Canapé Vert, Morne A Tuf, por onde passei. A campanha política tem mais força nas áreas pobres da cidade.
Em Pétion Ville há duas praças importantes: a Place Boyer e a Place Saint Pierre. Esta segunda é o lugar das grandes manifestações políticas. Lá os candidatos fazem suas campanhas com carros de som, bandas de música e ao som do “compas”, o ritmo nacional.
De volta à casa de Jean Marc, jantamos e falamos um pouco. Combinamos novamente sair bem cedo, pela manhã e decidimos marcar a ida para Jacmel, ao sul do país, para sexta-feira, pois aproveitaríamos o festival de cinema local, que ocorre anualmente e o show de Wyclef Jean. Jean Marc nasceu é Jacmel, e disse que seria o lugar perfeito para estudar o vodu, sobretudo pela grande tranqüilidade da cidade, não tem o clima pesado de violência que este atribui à PAP.
Escrito por Zé Renato às 23h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Jean Marc me deixou em companhia de Santher, pois tinha assuntos pessoais a resolver e disse-me que Santher me levaria para casa mais tarde. Santher é um sujeito agradabilíssimo, de grande inteligência. Está desencantado com seu país. Se propôs a me judar a comprar um celular e que almoçaríamos juntos. Deixou-me em sua sala e disse que me levaria depois para conhecer a Faculdade. Disse que sua biblioteca estava à minha disposição. Contou-me que fora aluno de José Serra e Fernando Henrique Cardoso no Chile. Falou com carinho do país, que segundo ele viveu uma época maravilhosa, um sonho que virou pesadelo com a ditadura Pinochet. Saindo do Chile foi viver no México, onde vivia bem, mas quando houve a queda de Duvalier, se apressou a voltar para seu país, pois queria estar próximo de sua reconstrução pós-ditadura. Estranhou que José Serra, o mesmo que fora seu professor no Chile, tenha se tornado um político tão importante, ao ponto de se tornar candidato à presidência do país. Guardava dele a imagem de um homem extremamente tímido e compenetrado, nada que levasse a crer que viesse a se tornar um político...
No pequeno tour para FASCH, ele me disse que a situação era muito precária, mas que havia bons alunos na Universidade. Naquele momento, faltava luz, e fomos à biblioteca onde vi uma cena pungente. Vários alunos nas mesas, estudando quase às escuras, apenas com a pouca luz natural do começo da tarde (era algo por volta do meio dia), que entrava pelas janelas...
Santher me levou para um passeio de carro por Morne Hercule, onde passamos por um grande mercado de rua. Se por um lado tal mercado é fascinante, e nisso Santher concorda plenamente, por outro este mercado de rua é uma espécie de microcosmo que revela todas as mazelas de PAP e do Haiti como um todo. Sujeira, desordem, ausência absoluta de qualquer preocupação com a higiene, dezenas de produtos importados e nacionais, uma série de coisas que revelam o absoluto abandono do povo haitiano à sua própria sorte... E esse povo luta com suas armas para mudar essa infeliz sorte (que contra-senso “sorte infeliz”). O fato é que dezenas pessoas, especialmente mulheres se aglomeram pelas diversas calçadas da cidade, e em Morne Hercule elas são dezenas, centenas, talvez milhares de mulheres de todas idades que são as negociantes destes mercados.
Escrito por Zé Renato às 23h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Há uma idéia sobre Aristide e o Lavalas que supõe que estes vieram apenas substituir os Tonton Macoute de Duvalier, operando com a mesma lógica autoritária. Não sei se concordo plenamente com a idéia, mas ela parece bastante estimulante para pensar a situação do país. Estimula principalmente o pensamento porque a idéia geral que tenho encontrado, seja nos jornais “Le Nouvelliste” e “Le Matin”, seja nas conversas com as pessoas, é de que o grande agente que estimulou e continua estimulando a violência é próprio Estado Haitiano. Primeiro, com ação de Aristide armando a população dos biddonvilles, como se supõe, para permanecer no poder após o fim de seu mandato. Depois através de uma suposta inação do governo Préval, que se limita a entregar à MINUSTAH o combate à violência. Por outro lado, como é que tropas militares, treinadas para combates podem tratar de questões relacionadas à segurança pública em espaço urbano?
Aqui podemos ver claramente o fracasso de uma idéia muito difundida no Brasil para o combate à violência urbana: entregar ao exército a segurança pública. Isso é uma bobagem sem tamanho e a MINUSTAH é a prova disto. O problema aqui pode ser realmente bem mais complexo do que se imagina. Tropas militares não são capazes de conter situações de violência urbana. A onda de seqüestros de PAP não pode ser contida pelos soldados da MINUSTAH, sobretudo porque estes atuam em áreas muito específicas da cidade. Temos um quadro de difícil solução.
Quando aponto para alguns interlocutores a pacificação de Bel Air como exemplo de um sucesso da MINUSTAH, acabo descobrindo (e isso eu já havia lido antes) que esta área não pode ser considerada uma biddonville, mas um “bairro degradado”. O encontro com Rubem pode ser importante para esclarecer muita coisa sobre esse caso...
Há de fato uma série de coisas que somente o tempo e a convivência no país poderão esclarecer. O que ocorre aqui no Haiti, em especial em Porto Príncipe, oferece um quadro extraordinário de questões sociológicas que permitem pensar não apenas o país, mas como vamos administrar nossas cidades no futuro. O Haiti parece um microcosmo do mundo moderno, onde podemos encontrar um bom conjunto de questões sociológicas: violência urbana, favelização, mercados e economia informais, política, Estado, o problema das intervenções internacionais nos países em conflito, sociedade e Estado, elites e construção nacional, intelectualidade e poder, mídia... Um amplo cardápio de questões para todos os interesses e gostos.
Escrito por Zé Renato às 19h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Há pelo caminho várias bancas de loteria popular: “Lesly Bank”, “Fils de Dieu” entre outras, mas que são anunciadas com letreiros muito coloridos, tal como as pinturas dos taptap. Também pequenos estabelecimentos comerciais, lojas de “quincallerie”, que vendem material de construção, mercadinhos e algumas farmácias. Há postos de gasolina com marcas internacionais como a Esso, Texaco e outros norte americanos, menos conhecidos no Brasil. Jean Marc me disse que a loteria popular tem uma relação com o vodu, porque as pessoas têm seus sonhos e contam estes para os hungáns, que formulam palpites para o jogo. Contei-lhe que no Brasil, ocorre o mesmo com o jogo do bicho, explicando que os sonhos servem como palpites, mas que não há relação direta entre religiões afro-brasileiras e o jogo.
Seguimos por Pétion Ville até o escritório do Prof. Ricard Jean-Pierre, que trabalha numa agência pública de Educação de base. Lá conversamos sobre minha ida à Jacmel. Jean Marc disse que iríamos na sexta, aproveitando o festival de cinema anual que lá ocorre e o show de Wyclef Jean, que ocorreria nesta data. Discutimos alguns poucos detalhes sobre esta ida à Jacmel. Depois nos dirigimos à Faculté de Sciences Humanaines.
Fomos pela Delmas, uma das avenidas importantes da cidade. Ao chegarmos, ele me mostrou uma faixa na entrada da faculdade em repúdio à MINUSTAH, escrita por estudantes. Em conversa posterior com Mme. Rayon ela falou do sentimento contraditório em relação à presença das tropas da ONU. Se por um lado é uma intervenção que afeta a soberania da nação, por outro, sua ausência poderia provocar uma instabilidade ainda maior no país. O fato é que realmente paira no ar um sentimento de que a violência é permanente, sobretudo em função da onda de seqüestros que está afetando PAP.
A Faculdade é simpática, pequena, mas muito agradável. Um ambiente bastante agradável. Fomos direto para a sala de Pierre Santher. Santher é um sociólogo que estudou na Flacso no Chile entre 1966 até o golpe que derrubou Allende. Ex-marxista, se definindo atualmente como um anarquista, mostrou-me um artigo seu onde analisa a figura de Aristide numa chave weberiana, como uma liderança carismática que ao chegar ao poder passa por um processo de rotinização do carisma, o que consequentemente produz sua queda. Por este caminho analítico, no artigo escrito há sete anos atrás, Santher procura entender o caminho que conduziu Aristide e o Lavalas à total ilegalidade.
Escrito por Zé Renato às 18h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |