Aytian Nuvel


A violência daqui e a violência daí

Acabo de receber uma chamada do Brasil... Minha mãe...

Pergunta se estou bem. Havíamos falado por telefone a cerca de quatro horas atrás. Eu disse impaciente: “Mãe, é claro que estou bem... O que é que há???”.

Era o golpe do seqüestro... Bastante oportuno, considerando a distância em que me encontro e as eventuais dificuldades de comunicação. Já havíamos conversado para que nesses casos, nada de tomar alguma atitude precipitada. Ligue 190, fale o que está acontecendo. Também havia sugerido a instalação do identificador de chamadas, para que evitássemos este tipo de transtorno. Tudo bem. Estamos bem graças a Deus, eu e ela... Aliás, fica aqui um protesto: toda vez que necessitamos do velho 190, percebemos que este não serve para absolutamente nada. Que fique registrado. Lembro de todas as duras inúteis que já tomei de policiais pelo simples fato de ser negro e fico mais revoltado ainda... Proteger e Servir... Ah, já ia cometendo uma gravíssima injustiça com o 190... Ele serve para pedir para abaixar o som em festas...

 

Isso me fez pensar sobre a onda de seqüestros de Porto Príncipe e os relatórios sobre a violência daqui.

 

O que espanta aqui é a tremenda sensação de violência, uma espécie de abandono total das autoridades e o medo que se instala com isso. No entanto, essa mesma sensação é a que experimentamos no Rio ou em São Paulo, de certo descontrole e desgoverno, e a tendência ao apelo para soluções de viés proto-fascista: “Rodo neles!”.

 

Percebo a gravidade do problema. Como disse a minha irmã, a impressão que se tem lá dos Estados Unidos é que isso aqui é uma bomba relógio e que vai explodir a qualquer momento. Não sinto isso, mas assusta parar ali na estação final dos Tap Taps, na Grande Rue (Blvd. J. J. Dessalines). Lembra aquelas quebradas bem sinistras, onde você, todo mauricinho pensa: “Ô, ou... Acho que entrei na podre...”. Pois é... Laptop na mochila, relógio, celular... Sei não... Sabe aquela imagem de desenho animado, um monte de lobos famintos e você passando... Eles não vêem você, vêem aquela salsicha gigante andando, um pernil, um franguinho assado...

 

Isso é apenas a sensação de violência, não há nada demais, ninguém fala contigo. Um sujeito tenta me ajudar a tirar do tap tap a mochila maior, com as minhas roupas. A outra, com laptop e algum dinheiro, desta não desgrudo nem à base de porrada... Fico bolado com o cara... Mas não é nada... É só gentileza...

 

E assim vamos sentindo e vivendo a violência real daqui e uma outra violência imaginada, que sai dos jornais, das conversas. Em Jacmel só se fala de Porto Príncipe como o lugar dos “kidnapping”. O premier Jacques Edouard Aléxis, em entrevista na Espanha, fala em negociar com as gangues. Tudo indica que a formação e aumento de poder das gangues é fruto de uma política deliberada de Jean Bertrand Aristide para se perpetuar no poder...



Escrito por Zé Renato às 23h48
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Um amigo me perguntou se o Aristide era de esquerda, se era um progressista... Não sei responder, Aristide é ambíguo... Mas quem não é?

De qualquer forma, olhando o estrago feito no país, não dá mesmo para confiar num cara desses... Fica o artigo no link abaixo para vocês julgarem:

 

http://diplo.uol.com.br/2004-09,a981

 

As reações às declarações de Aléxis estão na imprensa local. O coordenador da área de Direitos Humanos do MINUSTAH, o embaixador brasileiro, os intelectuais do país... Até um camelô na rua reagia ontem indignado...

 

Li no domingo no Globo pela internet: 62 comunidades no Rio de Janeiro já estão controladas por milícias particulares. Olho para a gente rica daqui... Todos têm seguranças armados até os dentes, com escopetas e pistolas automáticas... O dado curioso das 62 comunidades é que algumas delas formam certo “Corredor do Pan”... O Estado não deve negociar com criminosos... Polícia Mineira vale?

 

Lembro do que disse uma amiga sobre o pessoal da “Mineira” que ocupou a área onde ela mora. “Tranqüilo, sem problemas, mas você não sabe realmente o que esperar dessa gente. Dos bandidos você até sabia, era foda, era perigoso, mas você até sabia o que podia esperar... Até porque eram gente dali, criada ali e que tinha respeito pelo povo de lá. Mas esses caras... Quem são eles???”.  

 

Já o primo de um amigo elogiou. “Tá certo... Eu dou oitenta contos por mês e ninguém assalta o meu negócio, não tem mendigo dormindo na minha porta...” (Calma amigo, exagerei um pouco por exercício de retórica. O mendigo é por minha conta, mas reflete um tipo de pensamento, né? Essa é a idéia...).

 

O que tem Porto Príncipe a dizer para o Rio e o Rio para dizer para Porto Príncipe?

 

P.S.: Saudade de casa... Do barulho das rajadas de fuzil, o esporro do bailes funk... Que doideira, né?

Mentira...

Saudade da minha terra. Dos amigos, da minha “véia”, do rango, da Antártica gelada, do Flamengo, que mesmo sem jogar faz falta pra mim...



Escrito por Zé Renato às 23h48
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Mercado é coisa de mulher

Se há algo que é notável nos mercados de rua haitianos é a presença maciça de mulheres. É possível afirmar, sem risco de errar, numa olhada apenas superficial, que as mulheres estão nos mercados numa relação de nove mulheres para um homem. E normalmente os homens nestes mercados de rua exercem funções muito específicas, tais como engraxates, relojoaria, pequenos consertos e venda de jóias e bijuterias, venda e conserto de sapatos, cds piratas, venda de artigos eletrônicos. E mesmo em alguns destes ramos “masculinos”, como os eletrônicos, as jóias e bijuterias e os sapatos também são vendidos por mulheres.

 

Elas são as donas das ruas de Jacmel, de Pétion Ville, de Port au Prince, de Leogane... Em todos os lugares os mercados são tomados por mulheres. É possível vê-las chegando bem cedo em tap taps, carregando grandes sacos na cabeça, ou trazendo pelas ruas pesados carrinhos de mão com seus produtos. Espalham seus produtos no chão, em barracas, circulam com eles... São às vezes grupos de mulheres, quatro ou cinco, mais as suas crianças, fazendo os cabelos, trançando-os ou alisando, algumas bem vestidas, outras nem tanto. Em sua maioria são mulheres de meia idade. Jovens são poucas, normalmente as que têm muitos filhos, às vezes três ou quatro.

 

Os produtos são muitos. Os principais, mais recorrentes, as frutas e legumes, banana verde, laranjas, tangerinas, repolhos, tomates, cenouras, hortaliças, agrião, alho porro, salsa, cebolinha e coentro, pimentas, feijões e favas de várias espécies. Encontra-se também óleo de cozinha, temperos prontos, açúcar, sal. Animais vivos: perus, patos, galinhas e galinhas d’angola. Em Jacmel e Leogane alguns cabritos e leitões, já em Port au Prince e Pétion Ville não, apenas as aves. Mas encontra-se em PAP, próximo ao Champ de Mars, coelhos, porquinhos da índia, pombos e outros animais em gaiolas, não para consumo, mas para criação doméstica.

 

Uma das coisas significativas destes mercados é a quantidade de produtos importados que se encontra à venda neles. A indústria nacional haitiana praticamente não existe, logo, boa parte dos produtos que são oferecidos é de origem estrangeira. Podem-se adquirir nos mercados produtos de marcas famosas internacionais. A origem da entrada destes produtos no país supõe-se, ocorreu graças ao total sucateamento da economia do país na ditadura Duvalier. A destruição da vida rural, e o conseqüente êxodo para as áreas urbanas e a falta de uma indústria nacional capaz de absorver a mão de obra excedente, aliada à corrupção dos tonton macoutes, que controlavam a vida nacional, transformando o país num campo livre para o contrabando de produtos, todas estas variáveis reunidas criaram esse mercado “informal” imenso.

 

Estranho perceber que as mulheres controlam este mercado, sendo as ruas de Porto Príncipe consideradas demasiado perigosas. Os riscos nas ruas são, aliás, muitos. Como os passeios são estreitos e totalmente ocupados, elas são obrigadas a se colocar nas ruas, com o risco de atropelamentos e destruição de suas mercadorias. Não posso afirmar nada em relação a tais gangues que controlam alguns biddonvilles das cidades. Em Jacmel parece claro que não há nenhum problema dessa ordem. Pétion Ville tem seus riscos, mas também não é possível afirmar nada sobre a presença ou o contato destas gangues com os mercados de rua. O mesmo pode-se dizer de Porto Príncipe, temos o mercado popular do Canapé Vert construído para tirar das ruas boa parte dos comerciantes, o que não impede uma ocupação de outras ruas da cidade, mais ao centro, próximas de Belair, da Catedral, as quadras da Rue des Miracles, Rue du Centre, a Grand Rue (Boulevard Jean Jacques Dessalines), Rue Bonne Foi... Considerando a relativa pacificação de Belair e o fato de suas redondezas serem ainda consideradas áreas de segurança instável, nada pode ser dito quanto a presença destas gangues.

 

Para as comerciantes de rua, segundo o jornal local “Le Nouvelliste”, a rua facilita o contato com o cliente, que não gosta de andar demais, por isso, é importante estar bem posicionado, preferencialmente nas esquinas. Esta situação também causa reflexos no tráfego pelas vias públicas da cidade. Comentei com Jean Marc um dia quando voltávamos de Pétion Ville que uma das lembranças que terei de Porto Príncipe serão os engarrafamentos. A outra (boa) lembrança é a comida preparada por Mme. Deschamps...

 



Escrito por Zé Renato às 17h11
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Outra curiosidade do mercado de rua, esta havia sido comentada comigo por Omar Ribeiro Thomaz, quando conversei com ele no Rio, preparando a minha viagem para o Haiti, é a moeda utilizada no mercado. Não se fala em gourdes. Todos os preços são em dólar. Dólar haitiano é claro! Um dólar haitiano são cinco gourdes, então toda vez que você faz uma compra qualquer você tem que fazer essa conversão rápida. Cada cinco gourdes são equivalentes a um dólar (haitiano, o dólar americano vale cerca de trinta e oito gourdes e vinte e cinco centavos), se você compra uma cerveja Prestige, ela te custa 7 dólares, logo você tira da carteira trinta e cinco gourdes para pagar... Entendeu?

 

Não né?

 

Nem eu... Ou melhor, agora entendo, mas custei a entender...

 

Vamos por partes: o dólar haitiano não existe como meio físico. Não existem moedas de dólar haitiano. Ele é uma moeda imaginária através da qual são feitas todas as transações. Para os que têm boa memória ele é uma espécie de indexador, como foi a URV no período de implementação do Plano Real. A diferença essencial é que a URV foi criada pelo governo brasileiro e era controlada pelo Banco Central. Aqui no Haiti essa não é uma medida governamental, mas uma espécie de senso comum que se tornou regra oficial em toda transação que envolve dinheiro no país. Todos os preços são expressos em dólares haitianos e as máquinas registradoras de supermercados fazem a conversão automática de dólares haitianos para gourdes...

 

Imagina a confusão que é para um gringo que chega aqui com dólares americanos, converte-os para gourdes e depois descobre que tem que pagar tudo em dólares... HAITIANOS... Pois é... O Haiti é aqui...



Escrito por Zé Renato às 17h10
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As mensagens que se seguem estão na ordem exata em que os fatos foram ocorrendo...

Então, aqueles que acompanham a novela dia a dia, não precisam ler de baixo para cima, basta seguir deste ponto em diante que os textos seguem cronologicamente...

 

Abraços cheios de saudades de todos!



Escrito por Zé Renato às 13h46
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Jacmel

Jacmel é realmente um lugar muito agradável, diferente do clima agitado da capital, a cidade tem um simpático ar provinciano, aliado à beleza de um autêntico balneário do Caribe. Na estrada para chegar à cidade já dá para sentir uma mudança no clima. As casas são antigas, principalmente no centro da cidade, construções que lembram a Nova Orleans destruída há um ano pelo furacão Katrina. Pela internet e pelos jornais já tive informações sobre dois graves problemas que afetam a cidade no verão: as chuvas fortes que trazem inundações e os furacões.

 

A casa é bem simpática e confortável. Duas suítes com banheiro, uma sala espaçosa, uma varanda grande e agradável, onde dá para colocar o computador e trabalhar, e a despeito do calor que fazia naquele dia, a casa é bastante fresca e arejada. Tem um bebedouro com garrafão de água, fogão (que não consegui fazer funcionar), porém, não tem uma geladeira.

 

Fomos à praia, onde almoçamos um “Poisson Bucaneer”, um peixe preparado na brasa, acompanhado de salada e banane pisée. Jean Marc me advertiu que o mar era bastante perigoso e aquele local onde estávamos era o único apropriado para mergulhar no mar. Insistiu veementemente que não me banhasse no mar em nenhum outro lugar, senão aquele.

 

Passamos em casa e nos preparamos para sair à noite, ir ao show de encerramento do III Festival de Cinema de Jacmel, do cantor Wyclef Jean, na praia, em frente a um antigo hotel da cidade. O show demorava a começar, e eu sinceramente não estava com essa pilha toda, aliás, estava bem cansado. No dia seguinte, Jean Marc e Santher iriam embora. Finalmente eu ia ter uma experiência solitária como antropólogo no Haiti. E isso me dava certo medo. Queria voltar para PAP, com a desculpa de me encontrar com Rubem. Mas seria bom ficar, pois foi a chance de tentar me comunicar com as pessoas sem a mediação de Jean Marc. E penso que acabei me saindo bem...



Escrito por Zé Renato às 13h27
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Os mistérios do Vodu

Quando em 1986, uma revolta expulsava definitivamente do país a ditadura duvalierista, extirpando de modo brutal o câncer dos macoutes da vida do país, como que realizasse uma cirurgia violenta de amputação de um membro apodrecido, um grupo de pessoas viola o túmulo de Duvalier. Isso serviria mais uma vez para manter a imagem de uma ilha de bárbaros sanguinários, que utilizam em feitiços os restos mortais exumados. No entanto, olhando o profundo simbolismo contido neste ato, a expulsão da terra haitiana dos restos mortais de Duvalier diz algo mais profundo do que um mero ato de barbárie: é o desejo definitivo que o mal representado por Duvalier não possa mais assombrar as terras haitianas. Logo, é preciso encontrar as razões dentro da racionalidade dos nativos e não julgar pelos olhos de um ocidente supostamente “mais racional” os atos de um povo.

 

A religião vodu está cercada de desconhecimento em incompreensão. É vista como algo violento e irracional, como um meio de obter através da magia benefícios para si mesmo ou o malefício para outrem. As coisas parecem simples demais se vistas dentro desta chave. É preciso então olhar e estar atento, como no caso da violação do túmulo de Duvalier, para algo que vai além das aparências. É preciso desmistificar este imaginário da barbárie e repensar o vodu sobre outra perspectiva.

 

Naturalmente, os sacerdotes vodu (os “voduissant”, hungans, mambos) exploram de maneira positiva esse medo e este desconhecimento em torno de sua religião e de suas práticas. O misticismo de um lado e o desconhecimento de outro reforçam os poderes e criam em torno da religião vodu algo que vai além do folclore: um poder real através do qual os indivíduos tem a capacidade de realizar coisas. Numa ilha onde a precariedade prevalece, o “poder de fazer” é algo maravilhoso e altamente produtivo.

 

De um lado o desconhecimento e a ignorância produzem o preconceito e a visão negativa de uma religião de bárbaros ignorantes. De outro lado, estes mesmos desconhecimento e ignorância são fontes de um poder de inestimável valor para os seguidores do vodu.



Escrito por Zé Renato às 12h47
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Sozinho em Jacmel

Pois bem...

 

Era sábado, dia 02 de dezembro de 2006, Jean Marc havia me deixado na casa em Jacmel por minha própria conta. Liguei para Zizi, queria pedir a ele que me apresentasse a cidade. Mais do que isso Zizi iria me apresentar Mowoso, que conhecia bem as pessoas do local, sobretudo os hungans e mambos da região. Por telefone quase não nos entendíamos, e Zizi, pouco depois de minha ligação apareceu no portão da casa.

 

Saímos pela Route Lamandou, que leva a Via Principal da cidade. A casa fica na Rue Saint Joseph n. 4. Zizi é muito conhecido, vai falando com todos pela rua. Passamos em uma pequena loja, na esquina de St. Joseph com Lamandou, onde Zizi falou que poderia comprar cartões para o celular, pequenas coisinhas e bebidas (refrigerantes e cerveja).

 

Fomos pela Lamandou e encontramos Mowoso, que vinha carregando um leitão vivo, bem gordo. Conversaram algo em creóle, que imaginei ser uma saudação e algo relacionado ao que Mowoso faria com o porco (doravante, estarei sempre imaginando algo sobre o que as pessoas dizem, até poder entender de fato o creóle). Zizi disse a Mowoso que eu estava interessado em conhecer o vodu. Marcamos então encontro para as 15 h, quando ele me levaria para conhecer alguns hungans.

 

Zizi levou depois ao centro da cidade onde há um grande mercado de rua. Levou-me também a um mercadinho, onde poderia fazer compras (pão, queijo, artigos variados para alimentação). Zizi ainda mostrou-me alguns restaurantes baratos e bons da cidade, entre os quais escolheria mais tarde um deles para almoçar.

 

Depois fomos à sua casa, onde conheci seus quatro filhos e “madame” (depois reparei que é assim que os haitianos chamam as esposas) que possui uma pequena loja à frente da casa. Zizi me mostrou sua casa, em obras, as salas e os quartos. Ofereceu um coco, de um coqueiro que ficava colado a uma varanda nos fundos da casa de onde víamos uma parte da cidade. Seus filhos juntaram-se a nós e a mais nova, a única menina, sentou-se em meu colo. Crianças muito bonitas, o mais velho não deve ter mais de cinco anos, e formam uma “escadinha”. Brincava com a menina, dizendo para Zizi que eu e ela nos entendíamos, afinal ambos mal sabíamos falar creóle...

 

Quase ia esquecendo de dizer que no caminho para a casa de Zizi, paramos em uma oficina mecânica, onde um jovem me foi apresentado por Zizi como hungan. Conversamos, falei do tema da pesquisa, do que estava fazendo em Jacmel, que pretendia ficar aqui por um longo tempo... Comentei que o achava jovem para ser um sacerdote, ele disse que era uma herança de sua família, e que fora iniciado aos 05 anos de idade. Ele disse que ia celebrar uma cerimônia na terça-feira, dia 05 de dezembro, respondi-lhe, no entanto, que iria voltar à PAP na manhã de segunda-feira ou no máximo na manhã de terça-feira, pois tinha compromissos em PAP. Perguntou se eu iria filmar, fotografar ou coisa do tipo. Eu disse que não, que pelo menos neste primeiro momento, estava fazendo uma exploração inicial. Ele disse que poderia realizar uma cerimônia para mim (?????), e que o procurasse por volta das 16 h. Zizi ainda me diria, depois que saímos, que ele falou em creóle em cobrar pela tal cerimônia. Não era isso exatamente o que eu procurava, mas enfim...



Escrito por Zé Renato às 12h47
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Mowoso

Esperei Mowoso até 16 h na casa e nada dele aparecer. Não pretendia procurar o outro sujeito, que me pareceu uma típica coisa para turista ver. Um pouco chateado, saí à rua e, seguindo pela Lamandou, encontrei Mowoso. Ele disse que ficara me esperando, e eu achara que ele ia passar na casa... Desfeito o mal entendido, nos comunicávamos aos trancos e barrancos com o meu pouco francês e o francês/creóle dele. Disse que ainda poderia me levar para conhecer algo. Entusiasmei-me e disse: Allez lá (ou algo do tipo).

 

Andamos muito, seguindo pela Lamandou, até passarmos pela casa do “Monsenhor” (a figura mais importante da Igreja Católica no Haiti, segundo meu informante, que possui casa em Jacmel). Muitas voltas e passamos por uma construção que ele me disse ser um hotel abandonado, até chegarmos a uma casa onde parei encantado: um peristilo (perestyle) um tempo vodu. Bonito, redondo em terra batida, com um poste central no meio e um buraco, que parecia ser um local de depósito de oferendas ou algo do gênero. O que me encantara, sobretudo, era a incrível semelhança da construção com os terreiros que possuem postes centrais. Desenhada no poste uma serpente, Dambalah, um dos símbolos do vodu. Nas paredes desenhos de santos católicos se misturam com figuras da mitologia africana e animais. St. Jacques e St. Ives juntos com a serpente africana do Daomé... Tais relações serão essenciais para compreender posteriormente o sistema vodu.

 

Esse encontro surpreendente era só o começo do que iria ver naquela tarde. O melhor ainda estava por vir. Mowoso chamou por alguém que não respondia. Lamentou-se dizendo que o hungan saíra, e que talvez tivéssemos encontrado-o se fosse mais cedo. Pensei que estava encerrada a minha busca. Porém, Mowoso disse que poderia me levar a outro lugar. Respondi: Mwen mache bien[1]... Ele riu do meu creóle, e nos pusemos a caminho de novo. Andamos muito, e passamos por pequenos cemitérios muito próximos às casas, alguns túmulos faziam parte da propriedade, como parte comum da casa. Isso era algo que me chamava bastante atenção.

 

Todo o misticismo que costuma existir em torno do vodu parece estar calcado nesta intimidade com que o haitiano das zonas rurais do país lida com a morte. Há uma íntima ligação entre os mortos e a terra que estes habitam enquanto viventes. Os pequenos cemitérios parecem falar disto. Parece demasiado estranho para aqueles, como nós, que não estamos habituados com isso, perceber como os mortos podem estar tão próximos dos vivos. No Haiti, os mortos estão ao lado dos vivos para serem reverenciados por estes e oferecer sua proteção. Estão ali porque eles não se separam da terra onde viveram e agora devem ficar ali, para assombrar os inimigos e proteger seus entes queridos.

 

Isso também explica o que narrei anteriormente, sobre a violação do túmulo de Duvalier. Exumar e expulsar os restos mortais da terra significa não permitir que aquela alma repouse naquele solo. Significa que os restos de Duvalier não poderiam continuar em solo haitiano...

 

Logo podemos perceber o quanto o imaginário fértil sobre negros feiticeiros, que transformam pessoas vivas em zumbis, é fruto de um total desconhecimento, de uma ignorância crônica, e porque não dizer de um profundo preconceito e etnocentrismo, que se construiu em torno desta ilha. O Haiti é a terra dos bárbaros imaginários, usando a expressão cunhada pelo sociólogo Laënnec Hurbon.



[1] “Je marche bien”, ou seja, eu posso caminhar bem...



Escrito por Zé Renato às 12h44
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Encontro com o Baron Criminél

Seguimos, eu e Mowoso, caminhando pelas estradas de chão batido, passamos por um pequeno cemitério, algumas plantações pequenas de milho, mandioca, pequenas criações de cabras até chegarmos ao cruzamento entre duas vias, e uma casa bastante humilde, cercada com esteiras de palha. Na porta uma pequena casa, semelhante às casas de exu, muito comuns em terreiros de candomblé e umbanda, um carro abandonado e quatro mulheres sentadas no chão, comendo pratos de arroz com feijão, com crianças pequenas de colo. Mowoso perguntou em creóle onde estava o hungan, ao que as mulheres responderam que este estava trabalhando. Perguntei a Mowoso o que estava acontecendo, ele me disse que o hungan estava lá, mas estava trabalhando. Perguntei se isso era um problema, este me disse que não, entramos e as mulheres arrumaram cadeiras para sentarmos. Estávamos dentro do peristilo, e ao nosso lado dois homens também esperavam.

 

Aos poucos as pessoas que estavam dispersas pela pequena propriedade se juntaram defronte ao pequeno cômodo onde o hungan trabalhava, pegaram os tambores e começaram a cantar para o loa que estava presente, fazendo o trabalho. Começava ali meu encontro com o Baron Criminel.

 

O homem que esperava, e agora percebo que ele não quis dizer seu nome, nem deixar referência alguma, puxou assunto com Mowoso. Perguntou se eu estava ali por algum trabalho do hungan, Mowoso lhe explicou que eu era um estudante brasileiro, que estava ali para fazer minha pesquisa e que não falava creóle, apenas francês. O homem então se dirigiu a mim em bom francês, fazendo perguntas variadas sobre o meu interesse de pesquisa. O que eu queria saber do vodu, o que era candomblé, o que eu fazia ali... Enfim, tivemos uma pequena conversa, onde ele me revelou ser hungan da “Tradição Macaya”. Perguntou se eu conhecia. Eu disse que pouco conheço o vodu e que estava ali justamente para aprender tudo possível. Perguntou-me se eu ia fazer um livro, eu disse que não, em princípio, era apenas uma tese acadêmica, que pode ou não virar livro. Ele estava acompanhado de outro homem, que nada dizia, e quando o fazia, era em voz baixa, quase um cochicho e apenas com o amigo.

Uma mulher trouxe para meu interlocutor uma garrafa de rum (por sinal, o excelente rum haitiano Barbancourt), este a pegou, derramou um pouco no chão e bebeu no gargalo o primeiro gole, depois pediu um copo. Encerramos o assunto e olhava tudo com muito espanto e alegria. Estava diante de um belo objeto de pesquisa.

 

Os cantos foram ficando mais fortes e animados, o homem então se dirigiu a porta do cômodo onde o hungan trabalhava. Seu amigo se deteve um tempo, depois o seguiu. Não queria parecer curioso demais, e me detive um tempo. Aproveitei para olhar melhor o espaço. Um quadro de uma santa católica (aparentemente uma das muitas Nossa Senhora) ornava uma das paredes. No teto havia bandeirinhas de plástico colorido e uma grande faixa de pano em vermelho em preto contornava todo o muro do peristilo, que era baixo. O espaço não devia ter mais de 25 m2. Era bem humilde a construção, uma parte do teto, coberto por folhas de zinco estava descoberta. Toda estrutura era construída em madeira, coberta com uma massa que parecia feita de saibro e pedras. Onde estávamos, uma espécie de salão, havia uma esteira no chão com um bolsa roupas e objetos de uma mulher, que se deitou ali, depois que chegamos. Quando os cantos e toques de atabaque começaram, ela se levantou e foi para perto das demais pessoas e pôs-se a dançar.



Escrito por Zé Renato às 12h43
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Foi então que perguntei a Mowoso se podíamos chegar perto, ele sorriu e perguntou se eu queria, eu disse: “Claro!”. Ouvia do lado de fora a voz gutural do Baron Criminel, enquanto o homem continuava a beber o rum, agora no copo, segurando a garrafa, que depois devolveu à mulher que lhe dera. A mulher que lhe dera a bebida parecia bastante envolvida com tudo que se fazia ali. Depois ela se juntou aos três homens que tocavam tambores para tocar também. Era ela quem puxava alguns cantos. Perguntei a Mowoso se os cantos eram em creóle, este me respondeu que sim. Outras vozes femininas faziam uma harmonia interessante com os cantos. Penso que seria interessante gravar estes cantos, para reunir material para uma futura análise. A mulher que estava deitada na esteira dançava na minha frente.

 

Num dado momento, o Baron saiu do cômodo junto com seu cliente, foram até o salão, cavaram o chão e colocaram uma garrafa. Foi então que vi o Baron. Ele utilizava uma bengala e um guarda chuva. Tinha na cabeça um barrete preto e vestia uma roupa que lembrava as roupas de cavaleiros medievais, cingida por uma faixa, parecia uma bata longa, com uma cruz na parte posterior. Seus olhos estavam bastante arregalados e a face tensa. Andava muito rápido, dando ordens numa voz alta e gutural. O cliente cobriu o buraco cavado e o Baron pisou em cima, mandou que ele batesse com o pé no lugar. Voltaram ao cômodo. Mowoso me disse que tinha que ir. A mulher que tocava o atabaque pediu que nos detivéssemos um pouco mais, que o Baron queria falar comigo. Uns poucos minutos depois o Baron me fez entrar no pequeno cômodo e sentar, ao meu lado Mowoso servia de intérprete.

 

Aliás, conversara antes com Mowoso sobre o vodu, disse-lhe que ele parecia conhecer bem as coisas e as pessoas. Contou-me que seu pai fora hungan, por isso possuía grande intimidade. Expliquei-lhe algumas coisas do candomblé, a questão do poste central, que me chamara bastante atenção.



Escrito por Zé Renato às 12h42
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Voltando à conversa com o Baron...

Ele queria saber o que eu pretendia. Se eu queria filmar, fotografar as cerimônias, fazer um livro... Coisas que respondi que dependiam do rumo da pesquisa, que no momento queria apenas conhecer um pouco, pois disso depende a obtenção se recursos. Disse também que pretendia ficar um longo tempo no Haiti, no ano seguinte, para morar um tempo em Jacmel.

 

O Baron me disse que conhecia todos os segredos do vodu, para o bem e para o mal. Que podia curar as pessoas e matá-las com sua magia. Mostrou-me seu altar, onde havia muitos objetos, garrafas, velas, imagens de santos católicos, pequenos fetiches. Deu-me um livro para olhar, “A chave dos 150 salmos de Salomão”. Disse que ali havia invocações e conjuros para todo tipo de espírito. Perguntou-me como eram as cerimônias do candomblé, o que os “loas” do candomblé comiam. Disse-lhe que no candomblé os “loas” chamam-se “orixás” e que como no vodu há um Ogou, no Brasil temos Ogum. Ele me perguntou o que Ogum comia. Eu lhe disse que seu animal preferido é o galo. Ele me perguntou: “Vermelho?”. Eu disse que sim... Contei-lhe que os orixás vinham para dançar em suas festas.

 

Conversamos ainda um pouco mais, ele me falava dos diversos "loas” e seus poderes, os domínios sobre os quais estes atuam. Começava a escurecer e queria ir, assim como Mowoso. Pedi licença ao Baron para me retirar. Ele então pediu que eu voltasse lá, para conversar com o seu “cavalo”. A tal mulher que tocara os atabaques, ficou sentada ao seu lado, enquanto conversávamos. E ela me deu os números de telefone dele com seu nome: Aveman Valsaint. Falei que voltaria no fim de semana seguinte à Jacmel, e o procuraria para conversarmos.

 

Confesso que este primeiro encontro foi bastante excitante e revelador, por um lado, mas também serviu bastante para desmistificar certas coisas. O meu primeiro contato com o Vodu Haitiano lembrou muito as várias idas a pequenos terreiros de umbanda da Baixada Fluminense em fins dos anos 70 e início da década de 80. Não fosse eu bastante familiarizado com o universo das religiões afro-americanas, além do contato com a vasta literatura antropológica sobre o tema, talvez este encontro pudesse me causar maior espanto. Não estou tentando minimizar as coisas, mas realmente, o lado fantástico do vodu, que toda gente com quem comentei que vinha ao Haiti para estudar a religião daqui, sempre me pergunta, não tem nada de “tão fantástico assim”. Basta saber que o vodu é profundamente interessante, que é um material de pesquisa fascinante, mas não creio que vá encontrar aqui zumbis, lobisomens e feitiços poderosos que as pessoas esperam tanto.

 

Se meu primeiro encontro não me causou grande espanto, uma semana depois (quando escrevo) e depois de conversar com o simpático Valsaint, menos espanto ainda me causa o vodu. Mas falarei depois da segunda ida à casa de Valsaint.



Escrito por Zé Renato às 12h41
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Viagem num Tap Tap

Resolvi voltar de Jacmel na segunda-feira, pois acreditava que havia conseguido contatos importantes que me possibilitariam organizar minha pesquisa para o ano que vem, e como voltaria na semana seguinte, iria acertar alguns detalhes. Pedi a Zizi que fosse me buscar de manhã bem cedo, para me deixar na estação de onde saem os ônibus para Porto Príncipe.

 

Embora Jean Marc tenha feito uma recomendação de pegar um ônibus, confiei na escolha de Zizi, que depois de circular um pouco, me indicou um veículo. Duas mocinhas fizeram sinais para eu subir, Zizi riu-se, e me ajudou a subir na traseira do caminhão. Estava dentro de um Tap tap que ia me levar para Porto Príncipe.

 

A viagem é bem barata, custa algo em torno de 35 gourdes. Não há muito conforto. As bolsas ficam em baixo dos bancos que são as laterais do caminhão e há um banco no meio (mais desconfortável). Algumas pessoas viajam em cima do caminhão, onde vão também bagagens. Quem já andou na traseira de um caminhão militar ou desses que levam trabalhadores rurais para canaviais, vai reconhecer o que estou falando.

 

Enquanto as pessoas embarcam, há um intenso comércio. Compra-se água, refrigerantes, comidas diversas para a viagem, cana de açúcar, frutas, a onipresente banana, tangerinas e até pratos de comida, com galinha ou cabrito acompanhados de banane pisée, salada, arroz misturado com feijão. O carro só parte quando está lotado, e há várias e demoradas paradas, às vezes para que um veículo nunca ultrapasse outro que saiu em horário anterior.

 

As duas mocinhas fazem perguntas a mim, sobretudo quando descobrem que sou estrangeiro. Um outro rapaz, simpático, fala comigo, me ajuda a comprar um refrigerante. O rapaz saiu no meio da viagem, antes de chegar à PAP. Entram várias senhoras, com muitas bolsas, pessoas carregando grandes cachos de banana, sacos com produtos comprados no mercado. Um senhor, acompanhado da esposa, entra com um singelo galo embaixo do braço. Os vendedores fazem seu pregão final, alguns ainda dentro da viatura, quando esta se põe em partida.

 

O haitiano é quase sempre simpático e gentil. Sempre se dispõe a te ajudar e quer entender o que você faz ali. Gostam de conversar e sempre que sabem que sou brasileiro, não falam na MINUSTAH, mas em Ronaldo e Ronaldinho. Perguntam também sempre se “hablo espanhol”. Digo que no Brasil, “nous parlons portuguais”, eles me olham com uma cara de espanto, querendo saber que diabo de língua é essa, que não é nem francês, nem inglês, nem espanhol... Se ainda fosse japonês, eles entenderiam, mas o que seria esse tal “português”?

 

A viagem começa. O primeiro trecho é tranqüilo, embora eu começasse a pensar na insegurança daquele veículo. Quando começa a subida da serra, algumas sacudidas, umas “freadas de arrumação” e mais paradas. No meio da subida, um pequeno rebuliço me chamou atenção. Como quase nunca entendo o que se fala, sobretudo quando se fala rápido, quando olhei era um velhinho, que entrara acompanhado de um rapaz e se sentara ao lado de uma moça, grávida, provavelmente de uns cinco ou seis meses. O velhinho estava passando mal e começara a vomitar. As duas mocinhas do começo da viagem olhavam com nojo e riam-se do pobre velho. Uma mulher que se sentara ao meu lado vira a cara, enquanto o velhinho, do outro lado, vomita em um saco plástico.

 

Essa cena vai se repetir várias vezes por toda a subida e a descida, até Leogane. Uma das mocinhas, já na descida, começa também a passar mal e vomita. A certa altura temi por mim mesmo. A viagem na traseira do caminhão balança horrores, as curvas, o calor (estamos em dezembro, em pleno hemisfério norte, e a temperatura anda por volta dos 30º) e a pouca ventilação do veículo, complicam ainda mais a vida. Parece um barquinho no meio de um temporal em alto mar. Enfim, nada aconteceu, mas realmente não é estranho alguém enjoar numa viagem destas.



Escrito por Zé Renato às 12h38
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Numa das muitas paradas, ouvi a palavra: “Bloquée”. Estávamos em Mariani, e a Route de Carrefour estava bloqueada. O tap tap teria que ir por uma outra rota, em obras, paralela à Route de Carrefour, a principal. Seguimos então pela poeirenta estrada, quando um sujeito entra no veículo para fazer o seu pregão...

 

Primeiro ele começa vendendo chocolates. Por 10 gourdes, três maravilhosos chocolates com crocante. Depois ele retira da sacola um perfume, batons, sabonetes, pasta de dentes, aspirinas e para meu espanto total: PASTILHAS GAROTO!!! Eu ouvira o sujeito falar algo, mas como não entendera bem, achei que estava ouvindo coisas. Olhei para sua mão e vi um negócio verdinho, algumas pessoas compraram, ele dizia algo sobre o tal negócio ser refrescante e bom para a digestão (???). Depois, um homem que estava do meu lado, comprou e pude ver estupefato que se tratava mesmo da nossa tradicional pastilha Garoto. Pedi uma, cinco gourdes... Olhei e não acreditei. Resolvi guardar para levar para o Brasil...

 

Quando percebi estávamos defronte a Cité de Dieu, na Bicentenaire, algumas pessoas iam descendo, pois daquele trecho preferiam caminhar a pé a esperar que o ônibus chegue ao seu destino final. Liguei para Jean Marc, que estava no Musée d’Art du Haiti, que fica próximo à embaixada francesa, no Champ de Mars. Desci do ônibus e saí em frente ao cemitério de PAP. Fiquei um pouco tenso, pois me sentia perdido e não queria tirar ali o mapa da cidade que eu comprara na Plêiade, para me orientar. Vi então o Estádio Silvio Cator. Fiquei mais tranqüilo, contornei o estádio e estava no posto de gasolina, onde encontrei Jean Marc. Fomos para o Museu e depois para casa, passando antes em Pétion Ville, no supermercado para comprar algumas coisas.



Escrito por Zé Renato às 12h37
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