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Fim do primeiro capítulo...
Estou partindo hoje de volta ao Brasil.
Vim ao Haiti viver a experiência de conhecer outra cultura, levantar as questões fundamentais de meu trabalho, aprender uma outra língua, enfim, todas as fantasias e fetiches que giram em torno da idéia do trabalho de campo.
Devo agradecer inicialmente ao meu orientador de tese e grande amigo Federico Neiburg, que apostou na idéia de vir ao Haiti e investiu fortemente para que isso acontecesse. Nosso trabalho está apenas começando, mas apenas o simples fato de viver esta pequena experiência de campo, começo de uma longa jornada, já terá sido algo grandioso. Graças aos seus muitos contatos e meus novos amigos, como Omar Thomaz, Louis Marcelin e sua ampla rede de amigos no Haiti, entre eles o grande pesquisador Laënnec Hurbon, esta “aventura” não apenas foi possível, mas vai se tornar uma projeto maior.
Obrigado aos meus “sete ou oito leitores” pela companhia, porque em alguns momentos foi difícil falar, ficar aqui, estar aqui. Mas a sua interlocução virtual foi fundamental para que eu tivesse fôlego, superasse meus medos e continuasse em frente...
O blog não vai parar...
Continuarei no Brasil revendo as minhas notas, reescrevendo meu diário de campo, refazendo percursos. E naturalmente outros textos virão até a minha volta ao Haiti em 2007, desta vez para ficar um tempo ainda maior, de mais Nuvels.
Au revoir!
Escrito por Zé Renato às 11h33
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O ovo ou a galinha?
O problema da violência no Haiti e, sobretudo, a sua percepção pelas pessoas suscita uma pergunta permanente: é preciso segurança para haver desenvolvimento ou o desenvolvimento criará as condições de segurança?
Alguns dos meus interlocutores acreditam que nenhum projeto de desenvolvimento, que a alteração das condições de vida das populações pobres depende principalmente da superação dos graves problemas de violência que afetam o país. No seu entendimento, o quadro de violência que se instaurou afasta os investimentos e reduz as oportunidades de negócios no país. Que nada será possível se o país não contiver a onda de violência.
Por outro lado, sobretudo por ter conhecido um pouco a província, a vida afastada da capital do país, penso que o problema da violência afeta exclusivamente a capital do país. Logo, a sua percepção pelos habitantes da capital e a representação que esta violência produz nestas cidades afastadas são reificadas como uma espécie de “Quadro Geral do País”, o que nem de longe é a verdade absoluta sobre as demais regiões do país.
Em outras palavras, creio ser possível pensar sim em projetos de desenvolvimento no país, numa pauta que possa criar oportunidades de trabalho e investimentos em turismo, por exemplo, em Jacmel ou Cap Haitien. Penso que é possível criar projetos que atendam a pequena propriedade e a agricultura artesanal familiar para inserir essa produção em redes de distribuição de produtos das áreas tropicais: frutas, cana de açúcar, café, etc.
Escrito por Zé Renato às 11h32
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Imagino isso porque penso que a questão da violência urbana num quadro de tremenda desigualdade social não pode pautar a vida política de uma sociedade. E aqui vejo claramente que a questão da violência tem pautado a vida social e política, e por isso emperra qualquer imaginação política na busca de saídas para o país. Se as desigualdades não forem superadas, não há mínima chance de que a sociedade haitiana seja capaz enfrentar a violência. E por outro lado, penso que não há violência maior que a imensa pobreza que se vê nas ruas daqui.
Se os seqüestros afetam gravemente a vida do cidadão médio, se de um lado a idéia de que uma violência descontrolada impede o fluxo normal da vida social, por outro lado, não há violência maior que supermercados que parecem fortificações, onde as classes média e alta podem consumir produtos importados, do que os muitos carros importados que circulam de janelas fechadas, do que os seguranças fortemente armados que se ocupam de proteger a vida de “cidadãos de bem” do país.
Fala-se em “desarmar as gangues” para acabar com a violência e, no entanto, uma das coisas que mais vemos são aqui seguranças privados fortemente armados, protegendo mercados, casas e trechos de ruas. Há diferenças substantivas entre gangues de criminosos e “cidadãos de bem” que buscam se proteger? Isso nos leva imediatamente a uma comparação com a cidade do Rio de Janeiro, onde o prefeito César Maia chama as “milícias”, a velha “Polícia Mineira”, que controla algumas favelas da cidade, de um “exercício do direito dos cidadãos à sua defesa”. Aléxis, o primeiro ministro, não pode negociar com as gangues, mas nosso prefeito aprova a “limpeza” do Corredor do Pan.
Há ainda uma crença que insiste veementemente no fato de que Preval não tem compromisso com fim da violência, com uma ruptura com as gangues. Há quem realmente acredite que Preval tem uma relação forte com o que se chama por aqui de “Aristidismo”. O “Aristidismo” seria uma espécie de “populismo haitiano” que sucedeu à ditadura de Duvalier. Aristide teria investido em sua permanência no poder armando a população para resistir à sua débâcle. No fundo disto, ver-se-ia uma recuperação do Macoutismo, onde agentes privados controlam o Estado, mais do que isso, uma transferência do monopólio da violência legítima, que caracteriza o Estado Moderno, para grupos privados.
Escrito por Zé Renato às 11h31
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O problema então é que a violência aqui tem um caráter efetivamente privado, pertence a determinados grupos: às classes privilegiadas, que podem comprar segurança privada, armada; aos grupos armados dos biddonvilles, que operaram uma criminalização da política, que passa a assumir realmente as características típicas da violência urbana, baseada no trinômio pauperização da população – tráfico de drogas e armas – ausência do Estado.
A pergunta sobre Aristide para mim não tem resposta fácil. Suas ambigüidades, e tive realmente oportunidade de conhecer pessoas que lhe foram próximas, suas ambigüidades não nos permitem dizer nada de preciso sobre sua figura. Lideranças progressistas latino-americanas enxergam-no com bons olhos. A matéria do Diplo que coloquei em link na mensagem do dia 13/12 ( http://aityannuvel.zip.net/arch2006-12-10_2006-12-16.html ) , fala dessas ambigüidades, e narra um episódio relativo às privatizações no país, onde um ex-ministro conta que Aristide propôs a seus ministros transformar as privatizações num bom negócio para os membros do governo. Fala ainda de um Aristide que volta dos EUA comprometido com um programa de reformas neoliberais para o país. Ninguém pode afirmar, sem que isso seja feito com fervor quase religioso, de que lado está Aristide.
O fato grave é que ele tem uma grande parcela de responsabilidade no quadro atual de violência, senão diretamente como afirmam muitos, de modo indireto ao não combater os esquemas que caracterizaram o Estado haitiano na ditadura de Duvalier ou criando um esquema semelhante ao macoutismo, com seu grupo político o Fanmi Lavalas.
No entanto, creio que a grande violência que afeta ao Haiti são a sua extrema pobreza e as desigualdades sociais. O problema é a falta de políticas de combate a esta pobreza, e sem um combate direto a este problema, a violência não é, senão, o menor dos males.
A pergunta então é circular, se é a pobreza que gera a violência ou é a violência que não permite a superação da pobreza. O ovo ou a galinha?
Escrito por Zé Renato às 11h30
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Encontro na Librairie La Pleiade
Como já disse antes, com Franz me sentia andando com mais liberdade pela cidade. Falta pouco tempo para voltar para o Brasil, e a angústia que eu sentia de voltar para casa, começa a se transformar em saudade desta passagem pelo Haiti (aviso de antemão aos meus 3 ou 4 fiéis leitores que ainda contarei muita coisa depois de voltar ao Brasil).
Tenho que confessar que há três dias atrás estava angustiado e meio sem saco de continuar aqui. Pensava no tédio insuportável da ausência de novidades no horizonte. Vim ao encontro de certas questões e consegui encontrá-las, tenho boas condições de definir meu objeto de pesquisa, o que me restava a fazer aqui é o tedioso trabalho de levantar a bibliografia para o projeto de doutorado, visando sua qualificação. Neste exato momento, a exatas 48 horas de embarcar no vôo que vai me levar de Miami para o meu amado Rio de Janeiro, começo a sentir saudades daqui.
Apesar do pouco tempo, sempre somos afetados... Jean Marc, Zizi, Mowoso, Janice, Santher, Valsaint, Antoine, Robert, Silvie, Sabine, Roland, Mme. Deschamps, Franz… Os rostos vão passando como slides em minha cabeça e começo a pensar nas saudades que sentirei do Haiti. Os lugares. A paz e a beleza de Jacmel, a confusão e a excitação de Port au Prince, o charme discreto de uma movimentada Pétion Ville, a tranqüilidade de Belvil... Os engarrafamentos na Route de Fréres, as compras no Caribbean, o rum Barbancourt e a cerveja Prestige. Os caminhos da Route du Canapé Vert, da Av. Panamericaine e da Route Delmas.
Omar me diz que o trabalho de campo é um casamento. Que nada acaba assim tão fácil... E olhem que está apenas começando...
Federico diz que a viagem é um sucesso... Não sei... Sei que estou vivendo uma experiência inesquecível, que está mudando a minha vida. Sei que estou tendo a chance de aprender muito, com o trabalho de campo, com os amigos que faço com a vida que estou vivendo.
Ontem saí mais uma vez com Franz. Desta vez com a máquina, que espero que esteja funcionando bem. Tirei fotos das ruas.
De manhã cedo, após o café, falei com Jean Marc que queria ir ao Museu de Arte no Champ de Mars. Ele não poderia me levar, perguntei já animado com esta perspectiva, se poderia ir com Franz. Jean Marc foi ao supermercado pela manhã, acompanhei-o e aproveitei para comprar uma garrafa de Barbancourt para levar para o Brasil (pena não poder levar a cerveja...). Voltamos e Franz já estava pronto para sairmos. Fomos eu, ele e um primo seu, que estava de passagem por Belvil e iria para Pétion Ville.
Pegamos o tap tap, para a “estação” no Cemitério de Pétion Ville. No caminho, uma parada. Falta gasolina. O motorista encosta o carro, desce com dois galões e caminha até o posto. Algumas reclamações em tom jocoso. Desço para fazer umas fotos. O pessoal que trabalha nas ruas não quer deixar que eu tire as fotos. Fica uma situação engraçada. Um sujeito faz às vezes de porta-voz, e exige que eu atravesse a rua para falar com ele. Eu rio, e digo que não... Foco a máquina. O sujeito acena novamente para eu atravessar a rua. Rio novamente e faço sinal para que ele atravesse para falar comigo. O pessoal do tap tap ri, enquanto espera o motorista voltar. Desisto das fotos. Uma mulher do outro lado finalmente manda me chamar para tirar uma foto. Mas o motorista chegou e temos que partir... Saímos todos rindo...
Comento com Franz que gostaria de ir à Bois Patate, onde fica a Livraria Plêiade. Ele tenta me demover da idéia, seguindo as recomendações de Jean Marc, por causa dos “kidnapping”. Digo a ele que é importante ir até lá, pois pretendo encontrar um amigo de um amigo brasileiro, que me pediu que encontrasse com ele. Ele diz: “Ora, então vamos...”. Seguimos em direção à Rue Rigaud para a “estação” dos tap tap que vão para o Centro, pela Route do Canapé Vert.
Cada vez que demonstro para Franz que reconheço bem os lugares por onde passamos, ele sorri aprovando. Descemos pela Route, até o prédio da Teleco. Ali seguimos pela Rue Bois Patate até a Plêiade.
Escrito por Zé Renato às 14h46
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Não poderia ter sido mais agradável o encontro com Pólo na Plêiade. Omar havia me dado a indicação, infelizmente não havia conseguido ainda ir à Livraria que fica no Bois Patate, somente na filial, em Pétion Ville. Se a filial da Gregóire me encantou pelo acervo de obras sobre o Haiti em História, Sociologia, Cultura e Religião do país, a matriz é uma daquelas grandes livrarias que se encontram em todas as cidades do mundo. E ainda tem uma papelaria e um café maravilhoso, onde se pode almoçar e beber a boa cerveja Prestige, café e sucos...
Apresentei-me como amigo de Omar, ao que ele abriu um imenso sorriso, que era brasileiro, antropólogo e estava no Haiti para a minha pesquisa de doutorado. Disse que não queria atrapalhá-lo e se ele tivesse algum tempinho, poderíamos conversar um pouco. Ele disse que não havia problema, que poderia me dar algum tempo para conversarmos. Aproveitei para comprar mais um livro da língua creóle, uma espécie de dicionário/guia de frases, expressões e provérbios em creóle.
Fomos ao simpático café da livraria e lá encontramos Wooly Saint Louis Jean, um cantor haitiano, cujo cd adquiri na minha primeira ida à Plêiade, por sugestão da vendedora. E que boa sugestão... Wooly faz uma música excelente, agardável, com toques caribenhos e um certo ar cool. Muito bom! Fã da voz e das canções de Caetano Veloso e das melodias e letras de Chico Buarque, começamos uma ótima conversa, entremeada por trechos de canções brasileiras. Ele falou de Chico como o cantor “francófono” brasileiro. Disse-lhe que deveria gravar um cd de canções brasileiras e lhe sugeri que gravasse “Joana Francesa”. Disse-me que gostava de uma versão francesa de “A flor da pele (o que será)”.
Pólo também falava de seu gosto pela música brasileira. Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano, Elis Regina... Falei de Tom Jobim, eles responderam “Le Maestro”! Pólo me pediu que quando voltasse ao Haiti que trouxesse a letra de “Pra Dizer Adeus”, de Edu Lobo e Torquato Neto. Respondi-lhe que poderia escrever para ele naquele momento. Ele ficou encantado.
Tomamos um suco de Limão, um café, conversamos muito. Disse-lhe que tinha planos de trazer meu baixo para o Haiti. Ele lamentou que eu fosse partir na quinta-feira, pois na sexta haveria uma soirée musical no café da livraria e ele gostaria muito que eu estivesse presente. Um pena mesmo, pois estava conhecendo uma faceta interessante da cena cultural de Port au Prince, mas do que isso da vida intelectual da cidade, que não passa necessariamente pela academia. Jean Marc, Santher, o decano professor Michel Pierre, a escritora Sabine e o poeta e professor universitário Antoine, todos estes representavam uma face da vida intelectual haitiana. Com Pólo e Wooly estava diante de uma outra entrada na vida intelectual haitiana.
De um lado, meu anfitrião e seus amigos são a nata da vida intelectual do país, figuras de ponta da vida política, com atuação destacada e certo trânsito internacional, eles são parte do fluxo de intelectuais de países francófonos, que circula pelo Caribe, Canadá, América Central, Estados Unidos e, principalmente, França. São pessoas com formação doutoral em outras partes do mundo, notadamente na França. Do outro lado, com Pólo parece abrir-se a porta de uma outra faceta da vida intelectual do país: os artistas e a intelectualidade não acadêmica. Senti uma ponta de tristeza, pois ali estava diante da boêmia cultural haitiana, e mais ainda, de uma Port au Prince que era bem menos assustadora que a cidade violenta, vista à distância de Belvil e de Pétion Ville.
Escrito por Zé Renato às 14h45
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Perguntei umas duas vezes sobre a violência, como que insistisse em ter uma impressão diferente da cidade. Da primeira vez, Pólo pareceu não dar importância ao tema, falou que rapidamente que há problemas, mas a vida continua e mudou de assunto. Depois se deteve mais um pouco, falou que realmente o quadro é grave, e que o grande perigo é que o habitante da cidade se acostume a esta situação de violência, que não é normal. Falou que esta forma de violência é uma espécie de “novidade” que os haitianos não conhecem bem, mas que é parte do quadro de violência de toda capital, em qualquer lugar do mundo. Falou que Port au Prince é o principal centro de atração da população da província que vem em busca de oportunidades melhores de trabalho, estudo, etc. E que esta violência é recorrente em países onde há grande desigualdade social.
Pólo parecia ter uma visão algo menos alarmista e bastante sensata do quadro de violência da capital. Não desprezava, nem minimizava o problema do recrudescimento da violência, mas notava claramente que este processo não é uma exclusividade haitiana, embora imprensa, uma parte da intelectualidade e políticos vejam o quadro com grande alarme. Apontava para as desigualdades como o fator predominante, ao contrário do que tenho ouvido constantemente, que a luta contra a violência precede qualquer possibilidade de escolha política e que qualquer projeto de superação das desigualdades esbarra invariavelmente no problema da violência.
Para Pólo o combate à violência depende essencialmente da superação das desigualdades sociais. Não é que se pense o contrário aqui, mas há no ar tal clima de insegurança, que as pessoas acabam esquecendo que toda violência daqui decorre também disto, da imensa desigualdade social e não apenas de um quadro político de desordem institucional, de permanente ausência do Estado nas questões que interessam à vida da população, de uma espécie de falta de espírito republicano, tanto na sociedade civil, como no Estado. A ausência de uma visão da vida urbana como a gestão da “res publica”, ou seja, a chamada “coisa pública” tem um peso substantivo sobre a vida social haitiana, mas não é o ponto essencial que pode promover as mudanças.
Penso como Pólo, que o ataque aos problemas de desigualdade, a geração de oportunidades, a regulamentação do uso do espaço público, sem que essas coisas sejam imposições externas, mas que seja um construto realizado por um amplo acordo social que envolva, principalmente, os setores mais afetados pelas desigualdades. Creio que algumas experiências têm sido feitas neste sentido, e o caso da pacificação de Bel Air pode apontar para uma espécie de modelo. Há muita coisa a ser feita...
Enfim, a conversa com Pólo suscitou um outro tipo de reflexão, que permite enxergar outras facetas do problema. Há de fato percepções distintas sobre a pobreza, a desigualdade e a violência no país que permitem um estudo bem interessante. O trabalho do Omar aponta para estes problemas da percepção da desigualdade pelas elites. Precisamos de trabalhos que apontem para outras percepções, essencialmente das populações pobres haitianas sobre a sua condição e sobre as possibilidades e caminhos para a superação destas condições a partir desta percepção.
Saímos da Plêiade com o compromisso de voltar lá trazendo vários cds de música brasileira e trazer meu contrabaixo para tocarmos juntos eu, Wooly e Pólo. São mais outros amigos que estou fazendo aqui no Haiti.
Escrito por Zé Renato às 14h43
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Franz é o cara!
Tudo bem que o Jean Marc é ótimo, uma figura excelente. Mas se há alguém que foi muito bacana na minha passagem por Port au Prince, esse cara é o Franz... Sem desmerecer quem me recebeu em sua casa com todo o carinho e gentileza, me tratou quase como um filho... Não é isso, mas Franz me ajudou a andar por Port au Prince. Ensinou-me o pouco que pude aprender sobre as ruas daqui.
Franz é o caseiro que trabalha para Jean Marc. Ele não é de Port au Prince, é de Cap Haitien, ao norte do país. Cap Haitien é cidade onde o Rei Henri Christophe, um dos heróis da independência do país, construiu “La Citadelle Laferrière”. Conhecida vulgarmente como “La Citadelle”, ela é um dos símbolos da resistência haitiana na luta contra os franceses. Ë uma das belas cidades do país, que infelizmente não tive chance de conhecer desta vez...
Franz é um cara baixinho, simpático, sempre disposto a ajudar. Tem um jeitão quieto, caladão, mas não é tímido, nem tampouco antipático. É como todo bom haitiano, um cara que gosta de conversar, de conhecer as pessoas e de saber como elas são, como vivem...
Prometi a ele uma camisa do Flamengo.
Aliás, um parêntese...
Dizem por aí no Brasil, que o São Paulo é, supostamente, o clube brasileiro mais conhecido no exterior. Dizem que a torcida do Corinthians cresceu tanto que chega a ultrapassar a torcida do Flamengo. Dizem que a Seleção Brasileira é a paixão do povo haitiano. Disso eu até não discordo. Vi inúmeras camisas da seleção por aqui. Todo mundo fala em Ronaldo e Ronaldinho. Ok! Vi várias camisas de clubes europeus, Inter de Milão, Milan, Barcelona, Real Madri, Arsenal.
Queiram vocês ou não, e por isso Franz vai ganhar uma camisa do Flamengo, EU VI UM SUJEITO COM A CAMISA DO FLAMENGO NA ROUTE DE FRÉRES!!!!
Não foi ilusão e infelizmente não deu tempo de fotografar (estávamos passando de tap tap). Atravessou a rua na frente do tap tap, entrou numa rua e se perdeu na multidão... Um camarada vestindo uma camisa 11 do Clube de Regatas do Flamengo (provavelmente um fã do Romário). Não me falem de São Paulo, Corinthians ou qualquer outra bobagem. Depois da foto do camarada de Angola, quando a sua seleção se classificou, agora encontro aqui no Haiti mais um rubro negro... Por isso Franz ganhou uma camisa do Flamengo. Quando eu voltar, ele receberá...
Pois bem...
Foi com Franz que finalmente pude andar de verdade por Port au Prince.
No sábado, Jean Marc estava fora do país para uma conferência. Fiquei aqui, aos cuidados de Franz e de Mme. Deschamps. Falei com Franz, depois do café da manhã, que precisava ir à Pétion Ville para encontrar uma amiga de um “irmão” meu, que trabalha numa ONG, aqui no Haiti. Franz disse-me que após o almoço poderíamos ir. Pensei que ele fosse me dar uma volta. Mas me aprontei, para que pudéssemos sair. Ele estava esperando o meu sinal, pediu um tempo para tomar banho e se arrumar e saímos. Andamos muito até a saída de Belvil, que parece um daqueles condomínios de casas da Barra ou de Jacarepaguá. Enfim, a rua: estava na Route Frères.
Escrito por Zé Renato às 01h09
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Não há como não dizer que estava num estado de excitação enorme com essa saída à rua. Ele disse que iríamos até, literalmente, a “estação” dos tap tap da Route de Frères. Os tap tap não possuem nenhum tipo de regulação pelo poder público. No entanto, eles trabalham com rotas bem definidas, vão da Route des Frères, à altura de Belvil, até Pétion Ville, próximo ao cemitério e dos postos de gasolina Esso e Texaco, no final da Route Delmas. Dali você anda um pouco para pegar ou um que desça pela Delmas ou na Rue Rigaud que siga para o centro de Port au Prince pela Route du Canapé Vert ou pela Av. Panaméricaine.
Andamos menos de 20 m da entrada de Belvil e embarcamos num tap tap. O motorista só parte quando o veículo está lotado de passageiros sentados. Pouco antes de sair de Belvil, fiquei arrasado, pois, mais uma vez, esquecera da máquina fotográfica... O trânsito na Rte. de Frères é sempre infernal. À medida que vamos chegando ao posto Texaco que fica nesta via, ou quase sempre depois da agência do Sogebank, o trânsito fica parado. Não há saída. Ou melhor, a saída é seguir pela Rue Delmas 95, não confundir com a Route Delmas, em direção a esta, para daí chegar à estação final.
Ali, próximo ao Cemitério, pouco abaixo de Pétion Ville, é uma das maiores concentrações de gente circulando que vi aqui em Port au Prince. A outra, é claro, foi na estação de tap tap próxima ao Cemitério de Port au Prince e do Estádio Silvio Cator. E um monte de gente ocupando as calçadas vendendo produtos, gente andando para baixo e para cima, correndo para tomar assento em um tap tap. Franz ficou preocupado comigo, queria me segurar pela mão, eu disse: “C’est tranquile...”. Fomos andando até a Place Boyer.
Já havia caminhado uma vez por Pétion Ville, um dia antes de ir pela segunda vez à Jacmel, quando Jean Marc me deixou por lá, porque tinha uma reunião e não podia me levar. Nessa ocasião, encontrei dois soldados brasileiros, do Rio de Janeiro. Conversamos. Eles me esclareceram sobre uma espécie de zoneamento da cidade, que se divide em áreas verdes, amarelas e vermelhas. Áreas vermelhas, por exemplo, Cité Soleil e a zona próxima ao Aeroporto. Áreas amarelas, Champ de Mars, áreas do Centro próximas à Bel Air. Áreas verdes: Bel Vil, alguns lugares de Pétion Ville: Place Boyer, trechos das ruas Metelus, Gregoire, Darguin, Lamarre, Clerveaux, Goulard... Disseram que eu andasse por ali, mas que “não desse bobeira”. Brinquei: “Pô cumpadi, vou perder pra esses caras? Eu sou do Rio de Janeiro...”. Eles riram, mas reforçaram o conselho.
Mas com Franz, andava tranqüilo... Ele sempre de olho, controlando tudo. Agora imaginem vocês, que um sujeito da metade do meu tamanho estava “tomando conta de mim”... Aos poucos, ele percebia que eu não era também tão perdido assim... Sabia onde estava e sabia para onde íamos ao que ele respondia com um sorriso de aprovação. Fomos então à casa de Maria, uma portuguesa que trabalha numa ONG, que fica próxima à Place Boyer, onde estava ocorrendo uma feira de artesãos. A casa dela fica próxima à praça. Fica também em Pétion Ville a Embaixada do Brasil. Chegamos à casa dela, conversamos, tomamos café e dali saímos para a Place Boyer, onde fiz pequenas compras de presentes e lembranças do Haiti
Escrito por Zé Renato às 01h08
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Franz me ajudava nas negociações, fazia careta quando o preço não convinha e me orientava para comprar as coisas mais interessantes. Dizia para não comprar, mediava as situações onde meu francês incipiente não podia alcançar, usando pequenas frases em inglês para me facilitar a comunicação. Às vezes interferia diretamente falando em creóle e me esclarecendo depois do que se tratava. Estava feliz de poder finalmente conhecer a gente de Port au Prince... Mais do que isso, a atenção de Franz comigo me dava uma nova perspectiva sobre estar no Haiti.
Um simpático artesão vendeu-me duas camisas pintadas por ele. Deu-me seu cartão, conversamos sobre o Brasil, futebol e a recorrente pergunta se em nosso país falamos espanhol. Aliás, acho oportuno o fato da Mangueira ter escolhido como tema a língua portuguesa, assim como há alguns anos atrás a Unidos da Tijuca fez um belo carnaval sobre a lusofonia. Acho que se há uma pauta da diplomacia brasileira em relação ao Haiti, a primeira coisa que eles deveriam se preocupar é com a questão da nossa língua.
O Haiti também é um ótimo mercado para os produtos brasileiros... Mas comento isso outra hora...
Vi algumas coisas muito legais, meio caras ou difíceis de transportar, como os trabalhos em metal, que são belíssimos. Há trabalhos em metal extraordinários aqui no Haiti. Uns caras com pinta de rappers e de cantor de reggae perceberam que eu não era do lugar. Estavam numa barraca, vendendo umas camisas bem legais com desenhos relativos ao vodu... Cem dólares haitianos... Franz balançou a cabeça, fez um sinal. Segui na mesma hora...
E assim fomos, circulando por Pétion Ville, eu e Franz, ele me ensinando um pouquinho da malandragem das ruas da cidade, sem pretensão (como o bom malandro), com muito respeito...
Descemos da Place Boyer em direção ao Cemitério, para pegar o tap tap, começava a anoitecer. Tudo lotado. Franz me fez um sinal, tipo: “Me segue”, eu fui, daqui a pouco encosta um tap tap e ele acena. Sentamos na frente ao lado do chofer. Quando paramos em frente a Belvil, ele fez questão de pagar as duas passagens, já que na ida eu havia feito.
Além do ótimo passeio pelas ruas, ganhei um novo amigo no Haiti...
Escrito por Zé Renato às 01h07
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Ou vle pale kreyòl?
Numa aula de francês comentando que vinha para o Haiti, disse mais de uma vez estar preocupado com a dificuldade de comunicação que poderia haver aqui. Embora o francês seja uma das línguas oficiais do país, seja ensinado nas escolas e muita gente fale por aqui, a língua do haitiano é o creóle. Fala-se em francês para se comunicar com o estrangeiro, políticos em conferências de imprensa com repórteres estrangeiros, estrangeiros entre si, mas o francês parece quase uma língua estrangeira. Diferente do português falado em Portugal, que tem profundas diferenças com o nosso, o creóle é uma língua própria. Embora soe como o francês, palavras tem sons semelhantes, não dá para falar francês e achar que estão entendendo tudo o que você está tentando dizer em um mercado de rua, por exemplo.
Alguns poderão alegar que é culpa do meu francês incipiente... Talvez...
“KONBEN TAN N’AP PRAN POU NOU RIVE?”
Pista: Dentro do tap tap, vindo de Jacmel para Port au Prince…
Ou ainda
“ESKE GEN BIS KI PRAL POTOPRENS JODI?”
Pista: Indo de Jacmel para Port au Prince...
Escrito por Zé Renato às 17h06
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As pessoas podem até achar que estou escrevendo assim para dar certo tom pitoresco... Não é isso mesmo. Quero apenas marcar as diferenças. O som parece com o francês, é claro. Mas esta é a grafia real das palavras em creóle.
“KONBEN TAN N’AP PRAN POU NOU RIVE?”, quer dizer literalmente “Combien de temps allons nous prendre pour arriver?” ou mais num francês mais “correto”, “Nous allons arriver dans combien de temps?’’.
“ESKE GEN BIS KI PRAL POTOPRENS JODI?” quer dizer “Il y a des bus qui vont à Port au Prince aujourd’hui?”.
Tudo bem. Concordo que assim escrito, dá para aproximar. Não é tão difícil em teoria. Na prática, no entanto, o dia a dia é muito mais complicado. Penso como tenho me comunicado nestes dias que Jean Marc viajou para uma conferência, como me comuniquei com Mme. Deschamps. As vezes não entendo uma linha do que ela diz. Com Franz, o caseiro, é mais tranqüilo. Café da manhã... Franz me pregunta:
“OU VLE ZE?”
Desespero... O que diabo ele quer? (Na verdade está me oferecendo). Pouco depois, abre a geladeira e me mostra uma caixa de ovos... “Ze” quer dizer “oeuf”. Está me perguntando se eu quero ovos no café da manhã.
Escrito por Zé Renato às 17h01
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Comprei um livro: “J’apprends le créole haïtien”. O título em créole: “Ann’ aprann pale kreyòl!”.
Expressões básicas:
Português: Bom dia!
Francês: Bonjour!
Creóle: Bonjou kòmè!
Português: Como vai você?
Francês: Comment vas tu?
Creóle: Kouman ou ye?
P.: Tudo bem. E você?
F.: Ça va. Et toi?
C.: Mwen pa pi mal. E ou menm?
P.: Eu vou bem.
F.: Je suis bien.
C.: Mwen la wi
Não dá para dizer que é fácil para o francófono entender facilmente um diálogo. Imagina no meio de uma mercado de rua ou na confusão para entrar num tap tap lotado?
Depois escrevo melhor sobre o assunto... Por enquanto vamos ficando por aqui...
Escrito por Zé Renato às 17h01
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Nouvelles?
Sem querer ser um pouco chato e sem apelar para didatismos fora de propósito, mas apenas querendo esclarecer meus 7 ou 8 leitores constantes, sei que fico alguns períodos sem atualizar o blog, o que aborrece os leitores ávidos de novidades. Mas de fato, a rotina de um pesquisador de campo nem sempre se faz de grandes novidades. Diferente de um turista que vai conhecer um país, e faz um relato diário de seu encontro com outra cultura, narra fatos insólitos, explora os grandes contrastes, a rotina da pesquisa as vezes se detém nos fatos corriqueiros, no dia a dia, no fluxo “normal” da vida das pessoas, que na maioria das vezes não apresenta grandes revelações.
A vida diária das pessoas aqui não difere muito das rotinas que conhecemos em nosso país. Acordar, tomar café, ir trabalhar, almoçar, voltar para casa, descansar, jantar e dormir. E estou longe de querer glamourizar este cotidiano para criar novidades para os leitores. Sim, há coisas “insólitas” como comer macarrão no café da manhã, ou como narrei da viagem de tap tap, onde as pessoas comem refeições com carne, frango, banana verde frita (a banane pisée), salada, arroz misturado com feijão (prato típico do Caribe: em Cuba, por exemplo, chama-se “Mouros e Cristianos”), isso às 7:00 h da manhã... Mas e daí? Em alguns lugares do Brasil, trabalhadores rurais fazem o mesmo, comem uma refeição forte no café da manhã, às vezes com arroz, feijão, macarrão, carne seca, mandioca, inhame, farinha...
Sim, outro dia aqui mesmo na casa de Jean Marc, acordei e tomei um susto pela manhã. Estava aqui Janice, o professor de saxofone, maestro Faustin e Jean Marc, quando chego à mesa para o café da manhã: uma travessa enorme de macarrão com salsicha. Não pude encarar o prato. Não consigo nem comer nada pela manhã no Brasil. Às vezes saio apenas com um cafezinho ou suco no estômago, quando muito, um pedaço de pão ou alguns biscoitos, e chego à mesa um prato de macarrão me espera? Não consegui... Não ia descer. E as pessoas tranqüilas, comendo seu prato de macarrão, suco, café e depois (sempre no fim do café da manhã) leite. Pedi desculpas pela indelicadeza, mas comentei que não tenho o hábito em meu país...
Mas normalmente essa rotina do café da manhã nada tem de insólito. Primeiro um cafezinho, suco ou água, pão, queijo e manteiga, nesta seqüência, às vezes uma fruta e no final leite morno ou frio, segundo o gosto das pessoas. As frutas também nada têm de incomum com nosso país, o clima é bem parecido, então não há nenhuma fruta exótica. Há a banana verde, cozida ou frita, mas que não tem nada de especial: banana prata ou d’água, e o que muda essencialmente é o modo de consumi-la, no caso aqui ela acompanha pratos salgados, porque quando verde seu gosto é neutro, ou seja, não é doce, nem salgado. Lembro que minha mãe, minha falecida avó (quando viva, é claro!) e muita gente de minha família têm o hábito de comer a banana madura, junto com as refeições. E que a banana cozida também acompanha vários pratos no Brasil (churrasco, cozidos, etc.).
Mas as frutas consumidas no café da manhã são principalmente o mamão e a melancia. Como estamos próximos do inverno, apesar do clima e da temperatura quentes, é possível que haja maior variedade em outras estações. Come-se também aqui uma fruta pouco maior, parecida com a fruta de conde ou mais para a graviola. Salvo melhor juízo, chama-se de “fruta pão”. As laranjas são grandes e suculentas e seu suco é clarinho, lembrando um pouco a cor e o gosto da laranja-lima, sendo um pouco menos doce. Nesta época há também muitas tangerinas. Os limões são bem pequenos e seu suco um tanto mais amargo.
Como estou dizendo, para mim estas pequeninas coisas do cotidiano têm um valor extraordinário. Porém, nem sempre são para todas as pessoas grandes temas ou coisas interessantes sobre a vida do país.
Escrito por Zé Renato às 15h03
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